segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 16



Naquela noite, tivemos o melhor jantar de nossas vidas até então, pela primeira vez um momento mãe e filho.
-O que você acha se eu fizesse uma reforma na lanchonete?
-Sabe que eu acho... Você deveria transformar aquele lugar em um bar-restaurante.
-Como assim?
-Aproveitar melhor os espaços... O que acha de uma pista de dança no segundo andar?
-Mas pista de dança não combina com restaurante...
-Restaurante durante o dia, né?
-E a noite música?
-Sim.
-Até que não é uma má ideia.
-Mãe... Ele não te procurou mais?
-Rustom...
-Por favor, não esconda nada de mim.
-Não... Ele não me procurou mais.
-Melhor assim.
            Fiquei aliviado em saber que meu pai parou de procurar pela minha mãe. Provavelmente ele havia se conformado com a separação proposta pela minha mãe, e finalmente nos deixando em paz para sempre.
            Após jantarmos, voltamos para casa. O relógio marcava dez e dez da noite. Entramos pela porta da cozinha, e após deixar a chave à fechadura minha mãe colocou sua bolsa sobre à mesa dizendo:
-Nossa... Me deu uma vontade de comer um bolo...
-Agora que você vem dizer?
-É porque agora que me deu vontade.
-Vontade de comer bolo às dez da noite...
-O que tem de errado?
-Nada... Mas na geladeira não tem um de laranja?
-Sim, mas minha vontade é de chocolate... Eu vou fazer um.
-Hum... Então eu não vou dormir tão cedo... Quero um pedaço de bolo também.
-Tá...
-Enquanto isso eu vou ver TV no meu quarto...
-Te aviso quando estiver pronto.
-Acho que o cheiro me avisa antes...
            Subi para o meu quarto, troquei de roupa e deitei em minha cama. O Cauê não me saia da cabeça. É impressionante como algumas pessoas podem mudar outras vidas, deixando em nossas mãos a felicidade, como um controle remoto do destino.
            De braços cruzados, encostei-me ao canto da janela enquanto observava o movimento da rua no breu do quarto, pensando e planejando o meu futuro ao lado do meu amor. Em um certo momento, reparei algo suspeito no portão. Imediatamente peguei meu celular que estava sobre a cama e disquei para a polícia.
-Alô? É da polícia?
-Sim...
-É que tem alguém tentando entrar em minha casa...
-Tente manter a calma e me passe o endereço.
-Tudo bem.
            Enquanto falava com a pessoa que me atendeu, permaneci próximo à janela, observando atentamente o indivíduo que tentava entrar em minha casa.
-Você consegue me dizer como essa pessoa é?
-Não dá pra ver... O rosto está encoberto pela aba do boné...
-São quantas pessoas?
-Só vejo uma.
            Nesse momento ele conseguiu abrir o portão e entrar. Assustado, exclamei:
-Oh! Ele conseguiu entrar...
            Deixei o telefone cair e corri em direção à porta. Desci a escada em dois pulos, seguindo direto para a cozinha. Minha mãe colocava o bolo no forno, e ao ver-me em prantos, perguntou:
-Rustom! O que é isso?
-Vem, mãe...
            Peguei pelo seu braço puxando-a em direção ao meu quarto. Preocupada, ela questionou:
-O que está acontecendo, Rustom?
-A gente precisa sair daqui, mãe.
            Ao entrarmos em meu quarto, tranquei à porta. Apreensiva, ela quis saber:
-Fala, Rustom? O que está havendo?
-Alguém entrou em casa, mãe...
-Mas quem?
-Não sei... Não te passa nenhuma ideia na cabeça de quem seja?
-Será?
-Sim... Ele veio se vingar...
            Minha suspeita era de que fosse meu pai, e logo se confirmou quando ele conseguiu arrombar à porta da sala gritando:
-Eu sei que vocês estão ai...
-Ah meu Deus!
-Calma, mãe...
            Até então, não sabíamos o que ele queria, mas algo de bom não haveria de ser, pois a maneira com que ele entrou em casa não estava pra fazer amigos. Com receio do que ele pudesse fazer, nos trancamos dentro do banheiro em meu quarto. Minha mãe estava trêmula, com medo do que ele pudesse fazer contra nós.
            Sentando-me ao chão encostado à parede, exclamei:
-Caramba!
-O que foi?
-Esqueci de pegar o telefone... Eu vou lá buscar.
-Não! Por favor, Rustom...
-Calma, mãe. Eu tomarei cuidado...
-Rustom...
-Já volto.
            Abri à porta do banheiro e dei a volta até o outro lado da cama para pegar o telefone que eu havia deixado cair. Peguei-o do chão, e quando me aproximava do banheiro ouvi uma forte pancada à porta do quarto. O susto fez-me tropeçar e cair, desmaiando logo ao bater a cabeça ao chão.
            Permaneci ali, caído, à mercê da violência alheia sem motivo. Preocupada, minha mãe saiu do banheiro e tentou reanimar-me, porém, continuei desacordado. Nervosa ela colocou meu celular em seu bolso, logo em seguida pegou em meus braços e arrastou-me para o banheiro. Não sei quanto tempo permaneci desmaia, só sei que acordei um pouco tonto. Segurando-me a mão, minha mãe chorava com medo que meu pai invadisse o ambiente e nos fizesse alguma maldade. Isso não demoraria a acontecer, pois pela violência com que ele batia à porta, com certeza ela não resistiria por muito tempo.
            Abraçados, mantínhamos distância da porta, porém, não conseguimos evitar a rendição. O ódio que ele sentia por nós estava estampado em sua face, e na sua mão direita havia uma arma de fogo, deixando-nos em pânico ao ser apontada para nós.
-Renato... Pelo amor de Deus...
            Irritado ele pegou pelo braço da minha mãe e a jogou com força sobre minha cama. Nesse momento, quatro viaturas policiais pararam na porta de casa.
-Não põe a mão na minha mãe.
-Cala essa boca, moleque.
            As sirenes das viaturas chamaram sua atenção. Nervoso, meu pai puxou-me pelos cabelos e me arrastou até a janela do quarto. Apontando a arma para minha cabeça, gritava aos quatro ventos:
-Se alguém entrar, eu mato todo mundo.
            A partir daquele instante, estava caracterizado um sequestro, tendo o próprio chefe de família como o criminoso. Em pouco tempo o número de viaturas já havia se multiplicado. A rua foi isolada, os vizinhos cercaram o portão e as emissoras de TV os céus com seus helicópteros.
            Eu parecia estar vivenciando um pesadelo. Por um momento meu pai fechou à janela, nos deixando totalmente isolados. A tortura psicológica era constante. Quatro horas se passaram e após amarrar-me à cama, foi a vez da minha mãe tornar-se alvo daquele covarde.
-Está pensando que eu vou deixar tudo de mão beijada pra você?
-Renato, por favor...
-Se você acha que vai se sair bem dessa, está enganada.
-Você não está bem...
-Eu vou acabar com tudo isso...
-Por favor, vamos conversar?
            Pegando forte em seus cabelos, ele questionou:
-Conversar? Agora que você quer conversar?
-Será que você não vê que está prejudicando ainda mais sua situação?
-Estou pouco me importando... Ninguém vai sair vivo daqui.
            Acredito que toda aquela situação poderia ter sido evitada se minha mãe o tivesse denunciado desde o começo, seguindo meus conselhos. Acredito que ela não tenha feito isso por medo que ele fizesse alguma coisa contra mim, pois embora ela negasse, eu sempre desconfiei que as ameaças contra nós eram constantes.
            A vítima ao chegar à delegacia registra um Boletim de Ocorrência, em seguida ela passará pelo exame de corpo de delito. Se a parte agredida não retirar a queixa posteriormente (Como acontece em grande parte dos casos por medo de represálias) o agressor será notificado a comparecer à Delegacia de Defesa da Mulher e dar seu depoimento. Após isso, o processo será encaminhado ao Fórum e a justiça quem ficará responsável em penalizar o agressor, e não a delegacia.
            Após anos sofrendo violência verbal e física, muitas mulheres procuram a delegacia para denunciar as agressões.

            "Eu lavava, passava, deixava a comida pronta para quando ele chegasse do serviço poder jantar, e ele me xingava de nomes que eu nunca havia ouvido na vida, falava que não eu prestava. Sempre deixei pra lá, até que minha filha me levou à delegacia e eu prestei queixa."  (Sandra, 45 anos, aguentou as agressões durante 12 anos)

            De janeiro a dezembro de 2006, mais de três mil casos de violência foram registrados na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).
            O tempo parecia não passar, e respirar tornava-se cada vez mais difícil, pois uma meia havia sido colocada em minha boca para que eu não falasse ou gritasse. A negociação com os policiais se estendeu pela madrugada adentro, e ao amanhecer, ainda nada estava resolvido.
            Todos estávamos exaustos. Eu já perdia as esperanças, quando avistei alguém se escondendo próximo à porta. Ao mesmo tempo em que fiquei feliz, o medo de que um conflito nascesse também era presente.
            O relógio da parede já marcavam nove horas da manhã. Foi por um descuido de um policial que vi nossas vidas por um fio. Irado, meu pai avistou que haviam entrado em casa e que ele estava praticamente cercado.
-Larga a arma e põe a mão na cabeça...
-Se alguém chegar perto eu mato todo mundo e me mato.
            Imediatamente ele apontou a arma para mim, ameaçando atirar caso alguém se aproximasse. Encorajada pelo instinto materno minha mãe jogou-se sobre mim, usando seu corpo para cobrir-me, servindo como escudo.
            Em 7 de agosto de 2006, o presidente Lula sancionou a lei de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, recebendo o nome de Lei Maria da Penha. A nova lei altera o Código Penal, permitindo que os agressores tenham prisão preventiva decretada e sejam presos em flagrante, acabando também com aquelas penas solidárias, onde o agressor doa cestas básicas ou paga multa.

"Essa mulher renasceu das cinzas para se transformar em um símbolo da luta contra a violência doméstica no nosso país." (Presidente Lula)

            Após ouvir muitos gritos masculinos e vários passos de pessoas correndo, um tiro soou alto. Percebi que minha mãe havia parado de se mover, fazendo-me entrar em desespero. Por um instante achei que ela estava morta, mas tudo não passou de um susto, pois o tiro havia sido disparado por um policial, atingindo meu pai, e nos livrando de um pesadelo.
            Existem momentos em nossas vidas que nos põe à prova, testando nossas forças e mostrando a nós mesmos até onde as pessoas podem chegar. Sei que cada ser humano possui um limite, e eu já estava próximo do meu.
            A Lei de Execuções Penais altera para permitir que o juiz obrigue o agressor a comparecer em programas de recuperação e reeducação. Além disso, a lei trás uma série de medidas que protegem a mulher agredida, que esteja em situação de agressão onde a vida corre riscos. Uma delas é a saída do agressor de casa. Reaver seus bens materiais e proteção dos filhos também estão incluídos. Passa a ser considerada violência doméstica a violência psicológica. Caso seja constatada a necessidade de tratamento físico ou psicológico, a mulher poderá ficar afastada de seu trabalho por até seis meses sem perder o emprego.
            Para denunciar a prática de violência e orientar os procedimentos, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres criou o telefone 180, que recebe diariamente mais de três mil ligações por dia.
            Foram momentos intermináveis que marcariam nossas vidas para sempre, mas que terminou com final feliz, graças a Deus.

            Passei o resto daquele dia dormindo, tentando aliviar o trauma psicológico que havia se instalado em nós. Por mais que eu e meu pai não nos gostássemos, ver seu corpo caído em meu quarto foi traumático, assustador. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 15



No domingo acordei angustiado, com febre. Ainda de pijama desci até a cozinha e avistei minha mãe sentada à mesa, comendo um pedaço de bolo de laranja, receita da minha avó. Abri a geladeira, peguei a jarra de suco e sentando-me à cadeira, exclamei:
-Bom dia!
-Bom dia, filho!... Você está pálido... Não está passando bem?
-Acho que não... Estou com febre.
-Quer ir ao médico?
-Não vejo necessidade... Logo passa.
            Passando geleia em uma torrada ela falou:
-A Soraia te ligou. Disse que precisa conversar com você urgente.
-Será que aconteceu algo?
-Não sei... Acredito que não, porque se fosse ela teria vindo aqui.
            Levantando-me da mesa eu disse:
-De qualquer forma eu vou ligar pra ela agora... Fiquei curioso...
-Tá bom.
            Segurando o copo de suco caminhei até a sala, peguei o telefone e disquei pra ela:
-Alô?
-Sô?
-Oi Tom!
-Você ligou pra mim?
-Sim... Estou me sentindo muito culpada por algo que...
-Que o quê?
-Não dá pra falar por telefone. Podemos nos encontrar?
-Aonde você quer ir?
-Podemos almoçar juntos hoje no Ibirapuera?
-Claro!
-Te encontro às duas?
-Não pode ser meio-dia?
-Por mim tudo bem!
-Eu vou de carro.
-Eu também.
-Encontro você no shopping então.
-Perfeito!
-Beijo, lindaaaaaaaa!
-Outros.
            Desliguei o telefone e voltei à cozinha para deixar o copo. Tirando a toalha da mesa minha mãe perguntou:
-Conversou com ela?
-Sim... Marcamos de almoçar hoje. Acho que deve ser algum problema com o namoro dela e do Kico... Vou tomar banho, mãe.
-Está bem.
            Subi para meu quarto e fui tomar um banho antes de sair para encontrá-la. Preferi não sofrer por antecipação e pensar em outras coisas, pois havia grande possibilidade de pirar se eu ficasse pensando muito no assunto, tentando adivinhar o que seria.
            Cheguei ao shopping e segui direto para a praça de alimentação. Pouco tempo depois a Soraia chegou, cada vez mais magra e bonita. Sorrindo, ela seguiu em direção a mim, acenando com a mão esquerda e caminhando tranquilamente entre as mesas, pois o ambiente não estava muito cheio, embora devesse estar por se tratar de um domingo e horário de almoço.
            Enquanto conversávamos, percebi nela certo incomodo, sentindo-me na liberdade de perguntar:
-Você parece não estar muito à vontade...
-Eu gosto muito de você, Tom... Não gosto de te ver sofrer assim...
-Sei que você se preocupa, mas sinônimo de amar é sofrer, miguxa...
-Depois de te ver daquele jeito ontem... Estou me sentindo culpada...
-Culpada pelo quê?
-Eu... Não sei se deveria, mas vou contar.
-Você está me assustando... Contar o quê?
-O Cauê foi ameaçado, por isso ele mentiu.
-Ameaçado? Como assim?
-O Cristiano o procurou naquela manhã que vocês foram falar com o reitor, depois de você ter o jogado na piscina... E disse que se ele fosse acusado de algo, você iria apanhar até não aguentar mais.
-Não acredito que o Cristiano foi capaz disso... E o Cauê não me contou nada...
-O Cauê fez isso para te proteger... Ele te ama. Quer prova maior que essa?
-Por que você não me falou isso antes?
-Fiquei sabendo faz pouco tempo...
-Droga! E eu sofrendo achando que ele não prestava...
            Levantei-me da cadeira e saí correndo em direção ao estacionamento. Peguei o carro e segui para a casa do Cauê. Receber aquela notícia foi como se a orquestra do amor voltasse a tocar em meu ouvido, a serenata dos eternos apaixonados. Eu não via a hora de reencontrá-lo e poder abraçar, beijar, sentir sua pele, seu cheiro novamente.
            Por mais que eu tivesse ficado chateado com sua atitude, compreendi que havia sido por uma boa causa, como a Soraia havia dito, realmente foi uma verdadeira prova de amor. Não houve um só dia em que peguei o telefone para ligar e pedir desculpa, mas na hora faltava coragem.
            Estacionei o carro em frente ao portão de sua casa. Desci com a pressão arterial às alturas. Toquei a campainha, trêmulo, nostálgico. Pouco tempo depois sua mãe apareceu à porta. Com a mão esquerda apoiada ao gradil, perguntei:
-Dona Irene... O Cauê está em casa?
            Percebi que ela não estava à vontade em me ver. Compreensível devido ao rompimento entre eu e seu filho ter acontecido de uma forma tão conturbada, cheia de mágoas. Após um longo suspiro ela cruzou seus braços ao peito, caminhou em minha direção e disse:
-Tom... Eu acho que vocês já se magoaram demais para...
-Por favor, dona Irene... Eu preciso falar com o Cauê.
-Eu não quero mais que meu filho se magoe.
-Dê-me uma chance de tentar?
            Silêncio. Olhando em seus olhos, implorei:
-Por favor, me deixe viver novamente?
            Emocionada, ela abriu o portão dizendo:
-Ele está no quarto.
-Obrigado!
            Corri em direção ao seu quarto. Meu coração parecia querer sair pela boca, e o frio na barriga era constante. Ao aproximar-me da porta, percebi que estava aberta. Sentado em sua cama, o Cauê dobrava uma camisa, e ao seu lado esquerdo uma mala aberta com algumas peças de roupa ocupava parte do colchão.
            Em passos lentos, entrei no quarto. Ao ver nossa foto sobre as roupas, não consegui segurar as lágrimas.
            Colocando a blusa sobre a cama ele falou:
-Mãe... Já pode chamar o táxi...
            Permaneci calado. Levantando-se, ele disse:
-Esse perfume...
            Levando sua mão ao peito, completou:
-Será que estou enganado?... É você, Tom?
-Sim...
-Por favor... Não quero mais brigar...
-Calma. Eu... Não vim aqui brigar com você.
-Não?
-Não... Eu já sei toda a verdade...
-Que verdade?
-A única verdade... De que você só quis me proteger...
-Tom...
-Você me perdoa?
            Exibindo um leve sorriso ele falou:
-Eu te amei desde a primeira vez que te conheci... A gente não perdoa um amor, apenas sente.
-Você deveria ter me contado.
-O amor que sinto por você é grande demais, não há lugar para egoísmo. Eu quero você bem, ileso... Mesmo que para isso o preço seja você longe de mim.
-Você não existe.
-Existo sim... Existo pra te amar.
            Suas palavras me tocaram fundo. Imediatamente o abracei e começamos a nos beijar loucamente. Sentir seu toque novamente me fez sentir vivo outra vez. Nossos corações batiam acelerados, e o encostar de nossas peles recarregavam as baterias de nossa paixão.
-Para que são essas malas?
-Estou indo viajar.
-Viajar?
-É... Eu ganhei um convite para ir àquele congresso de Direito...
-O de Porto Alegre?
-É.
-E... Quando você embarca?
-Hoje, às três e meia da tarde.
            Acariciei seu rosto perguntando:
-E quando você volta?
-Dia dezessete, terça-feira.
-Tudo bem... Eu vou morrer de saudade sua...
-E você acha que eu não?
-Sua mãe também vai?
-Sim... Ela pediu cinco dias de férias no trabalho para me acompanhar...
-Humpf...
-Para ser sincero eu nem queria ir.
-Por quê?
-Eu preferia ficar aqui com você...
-Nós teremos muito tempo para ficarmos juntos... Não perca essa oportunidade única.
-É... Você tem razão...
-Quando você voltar, iremos passar uma semana na praia.
-Você promete?
-Prometo.
-Eu não vejo a hora... Você vai cuidar bem de mim?
-Claro... Não confia em mim?
-Confio.
            Nesse momento sua mãe apareceu à porta dizendo:
-Já está pronto, Cauê?
-Sim...
-Então vamos nos apressar se não acabaremos pegando transito na Washington Luiz...
-O táxi já chegou?
-Ainda não.
-Pode deixar que eu levo vocês até o aeroporto.
-Não há necessidade, Tom.
-Mas eu quero acompanhá-los, dona Irene...
-Deixe ele nos levar, mãe... Assim passamos um pouco mais de tempo juntos.
-Bem... Eu só não quero incomodar...
-Vocês nunca incomodam.
-Então vamos, meninos...
            Após colocarmos as malas no carro, seguimos para o aeroporto. Até que o trânsito estava bom, e a consequência disso foi chegarmos lá em vinte minutos, uma hora antes de embarcar. O Emílio também viajaria com eles, claro, pois o Cauê não conseguia ficar muito tempo longe de seu melhor amigo.
            Enquanto sua mãe fazia o check-in, ficamos eu e o Cauê sentados no saguão de espera, abraçados um ao outro, matando a eterna saudade de um tempo perdido e jamais recuperado.
-Pronto... Já fiz o check-in, agora é só esperar.
            Encostando sua cabeça em meu ombro o Cauê disse:
-Eu queria tanto que você fosse comigo...
-Mas eu vou te acompanhar em seu coração, não vou?
-De lá você nunca saiu.
-Que bom!
-Promete que vai me esperar?
-Pra sempre.
            É incrível como o amor tem o poder de transformar as pessoas. A presença do Cauê me fazia tão bem que meu organismo respondia por si só. Jamais amei alguém como amava aquele garoto, uma sensação difícil de explicar, mas muito boa de sentir.

“Atenção passageiros do voo com destino à Porto Alegre, embarque imediato no portão 5.”

            Levantando-se das poltronas a dona Irene falou:
-Precisamos ir...
            Dando-me um abraço bem forte o Cauê disse:
-Estou com medo, Tom.
-Medo por quê?
-É que eu nunca andei de avião... Hahaha...
-Você vai gostar... É muito legal.
-Provavelmente sim... Eu não enxergo mesmo.
-Acredite em mim... Esse fator lhe ajudará muito.
-Queria tanto que você estivesse comigo...
            Nesse momento tirei meu bracelete e o coloquei em sua mão dizendo:
-Leve isso com você... Assim poderá me ter mais perto de você nesse tempo.
-Eu te amo, Tom!
-Também te amo!... E não se preocupe, vou colocar todos aqueles que te fizeram mal na cadeia.
-É muito difícil...
-Você confia em mim?
-Confio.
            Vê-lo caminhar em direção ao portão de embarque apertou-me a alma. Seu jeito tímido de caminhar, sua voz meio roca, a gargalhada, mal sabia ele o tamanho da saudade que deixaria em meu coração durante esse tempo em que ficaria fora, mesmo sendo pouco, mas pra mim era uma eternidade.
            Antes de entrar no portão de embarque ele se virou e acenou para mim. Aquele momento eu jamais vou esquecer, principalmente o sorriso daquele instante, diferente de todos os outros que já tinha visto vindos dele. O avião nem havia decolado ainda e eu já morria de saudade, esperando eternamente pela volta do meu amor, que pouco a pouco ganhava os céus.
            Naquele mesmo dia nos falamos por telefone, com o Cauê já em Porto Alegre.
-Tom...
-Fala, mozinho?
-Sabe que... Eu tô sonhando com o dia em que você me levará para conhecer o mar?
-Ah é?
-Sim...
-Quando você voltar, iremos realizar muitos sonhos juntos.
-Você promete?
-Prometo.
-Preciso desligar agora, mô.
-Está bem.
-Olha...
-Hum?
-Eu amo você, tá?
-Também te amo, mozinho.
            Desliguei o telefone. Pouco tempo depois minha mãe bateu à porta do meu quarto:
-Rustom?
-Oi, mãe!
-O que você acha de sairmos para jantar?
-Jantar? Nossa!... Que horas são?
-Sete e meia.
-Caraca!... Nem notei às horas passarem... Aonde você quer ir?
-Vamos a uma churrascaria?
-Um rodízio?
-Ótimo!
-Vou tomar banho.
-Não demore que logo irei eu.
-Tá.

            Depois que meu pai sumiu no mundo sem dar notícias, eu e minha mãe nos tornávamos cada vez mais próximos um do outro.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 14



Passei o dia arrasado. Tranquei-me no quarto e chorei sozinho, calado, com vergonha de mim mesmo. O que eu iria dizer à minha mãe? Não queria que ela se chateasse por minha culpa, pois já bastavam seus problemas.
            Custei a dormir. A madrugada estava quente, céu estrelado, lua perfeita. Virava-me de um lado para o outro, e o aperto em meu peito não aliviava, tornando-me refém de mim mesmo.
            No outro dia acordei com minha mãe batendo à porta do quarto. Com sono, levantei-me e abri:
-Filho... Você não vai pra faculdade hoje?
-Hoje não, mãe.
-Por quê?
-Eu... Não estou passando muito bem.
-O que você está sentindo?
-Nada de grave... Não se preocupe, pode ir trabalhar tranquila.
-Vou deixar o celular ligado o dia inteiro. Qualquer coisa, me liga.
-Pode deixar.
            Fechei à porta do quarto e voltei a deitar. Rolei de um lado pro outro na tentativa de voltar a dormir, mas não consegui. Tomei um banho quente para começar o dia.
            Liguei o computador para imprimir a letra da música do Fresno, e enquanto isso eu comecei a assistir aos vídeos que havia copiado do computador da Jéssica.
            No que parecia uma lanchonete, vários jovens bebiam e gargalhavam, parecendo ser um simples encontro de amigos, até que o Cristiano aparece, e atrás dele estava a Jéssica, fumando, e após um gole à lata de cerveja ela perguntou a ele:

“-Conta pra eles do ceguinho...
-Esse ano a gente jogou um ceguinho na piscina...”

            Várias gargalhadas eram ouvidas. Junto deles estava a Bianca, sentada ao balcão ouvindo toda a história. Naquele momento tive a certeza de que ele era mesmo culpado, e de que o Cauê havia mentido para nós no dia anterior.
            Gravei todos aqueles vídeos e fotos num Pen Drive, em seguida vesti uma roupa e segui até a casa do Cauê. Fiquei intrigado, afinal, por que ele havia mentido pra mim?
            Ao chegar cruzei com sua mãe no portão que saia para trabalhar.
-Tom!
-Oi dona Irene. O Cauê está ai?
-Sim... Pode entrar, ele está na cozinha...
-Obrigado!
            Entrei e segui direto para a cozinha, onde o avistei sentado à mesa, comendo maçã coberta por mel. Aproximei-me da mesa e falei:
-Cauê... Por que você mentiu?
            Assustado ele exclamou:
-Tom! O que você faz aqui?
-Vim lhe pedir que não me procure mais.
-Por quê?
-Você mentiu... Me fez passar por mentiroso na frente de...
-Eu não menti...
-Chega... Eu vi o vídeo em que o Cristiano confessa para os amigos que tentou te afogar...
-Você... Viu?
-Sim... Eu te desculpo, se você for comigo agora até a faculdade e fale toda a verdade para o reitor.
-Isso não.
-É assim?
-Desculpe, Tom... Não vou fazer isso... Não se intrometa mais nessa história.
-É dessa forma que você diz me amar?
            Silêncio.
-Jamais esperei isso de você, Cauê. Adeus.   
            Deixei sua casa arrasado, chorando, culpado por amar, e ser enganado. Cansei de ser usado, feito de idiota. Naquele dia coloquei um fim em meu namoro, interrompendo uma linda história de amor, e iniciando um longo período de sofrimento.
            No último dia de reposição de aula, o professor de Sociologia fez um debate em sala de aula. Enquanto os alunos discutiam entre si, fiquei calado apenas observando as argumentações até ser agredido verbalmente pela Jéssica:
-Eu não acho que todo mundo só porque vive dentro de uma sociedade deva ter um comportamento igual aos outros. Acho que cada um tem o direito de ser e se comportar da forma que se sentir bem.
-Pra Bianca tudo está bem, professor... Não tem preconceito... Sinto muito, mas ninguém é obrigado a conviver com certas coisas... Eu fico super perdida sem saber se o Rustom é homem ou mulher...
            Risos coletivos. No mesmo instante levantei-me e disse para todos ouvirem:
-Pior do que confundir a sexualidade é se esconder atrás de uma janela, após atirar ovos nas pessoas que caminham pelas calçadas. Demonstração de vergonha dos próprios atos, pois não mostra a cara.
            Fazendo-se de desentendida ela questionou:
-Mas do que você está falando?
-Estou falando daquele vídeo onde você e seus amigos se divertem às custas do constrangimento e sofrimento dos outros... É esse o profissional que irá defender um país? Quem aqui gostaria de ser defendido por um criminoso, imoral? Que ética ele terá para cobrar justiça?
-Eu espero que você prove tudo isso que está falando, se não eu te processo.
            Dirigindo-me à lousa falei:
-Não se preocupe, aqueles que tiverem alguma dúvida do que eu falei, pode assistir a festinha da Jéssica nesse link... Ontem, depois de muito procurar acabei encontra vários vídeos seus e de seus amigos na internet... Postados por vocês mesmos.
            Escrevi na lousa o link onde a Jéssica havia publicado o vídeo, e para concluir falei:
-Está ai um material para se estudar ética e moral...
            Seus olhos cuspiam fogo, tamanho ódio que a pessoa. A culpa foi dela, pois eu estava calado em meu canto, sendo ofendido e agredido gratuitamente.
            Um mês se passou e durante esse período o vídeo da Jéssica bateu recordes de visitação no site, até que ela o tirou com medo de ser prejudicada, mas eu fiz questão de torná-lo público novamente, e dessa vez ela não teria como tirá-lo se fosse postado por mim. Não pensei em duas vezes em postá-lo mais uma vez.
            Durante as férias, eu e a Soraia nos falávamos quase todos os dias, além de estarmos sempre nos vendo, pois seu namoro com o Kico fazia com que nos víssemos com frequência.
            A dieta para emagrecer que ela estava fazendo surtiu ótimos resultados, fazendo-a perder medidas rapidamente, e o resultado era tão visível que ela mesma começara a notar com os elogios masculinos direcionados à ela ao sair pelas ruas.
            O tratamento da obesidade necessita principalmente da colaboração do paciente, envolvendo reeducação alimentar, medicações auxiliares caso necessário, aumento de atividades físicas, tratamento comportamental com psiquiatra e psicológico, até mermo intervenção cirúrgica (Redução de estômago) caso necessário. Se a obesidade for uma causa secundária, ou seja, motivada por um problema inicial como depressão, por exemplo, o tratamento deve ser direcionado inicialmente para a causa desse distúrbio.
            A obesidade pode ser prevenida com uma dieta saudável estimulada desde a infância, evitando que a criança adquira maus hábitos alimentares e cresçam com evolução do peso acima do normal. Essa dieta inclui também atividades físicas, lazer, estrutura familiar organizada e relacionamentos afetivos adequados.
            Quem estava feliz da vida era o Kico, que agora tinha uma nova mulher ao seu lado, até ataque de ciúme ele tinha de vez em quando, pois os elogios eram constantes.
            Estávamos em sua casa, conversando em seu quarto. Deitado sobre sua cama eu viajava nos pensamentos, enquanto a Soraia andava de um lado pro outro pensando em algum presente para o Kico, seu namorado.
-Ai Tom... Me ajuda?
-Ajudar como?
-Sei lá... Ele é seu amigo, você o conhece bem melhor que eu... Do que o Kico gosta?
-Bem... Dê uma camiseta, um bracelete, sei lá.
-Roupa? Acho meio arriscado, vai que ele não gosta.
-Então não sei...
-E se eu desse pra ele um ingresso pro show do NX Zero?
-Faz isso que ele te pede em casamento na mesma hora.
-Hahaha... Perfeito!
            Sentando-se em frente à tela de seu computador a Soraia falou:
-Deixa eu ver aqui a data mais próxima...
-Vê se tem alguma perto do aniversário dele.
-É o que eu tô fazendo agora... Nossa!
-O que foi?
-Vai ter um show aqui em São Paulo, nesse sábado.
-Pronto! Poderá comemorar o aniversário dele no próprio sábado.
-Melhor ainda. É sempre bom comemorar nosso aniversário no próprio dia...
-Eu não ligo muito pra esse negócio de aniversário.
            Ligando a impressora, ela disse:
-Já reservei três ingressos... No melhor lugar disponível.
-Eu nem sei se eu vou...
-Ah, para! Você vai sim.
-Lindinha... Não estou muito bem...
-Agora eu já comprei, você vai. Amigo, não pode ficar assim, tem que sair pra se distrair...
-Acho que você tem razão.
-Por favor, não comente nada com o Kico por enquanto... Quero fazer surpresa.
-Pode deixar.
            Confesso que senti uma pontinha de inveja daquele namoro que ia tão bem entre eles. Algumas vezes eu até pensava em esquecer tudo e voltar pro meu amor, mas faltava-me coragem de chegar no Cauê e dizer o quanto era grande o meu amor.
            No sábado acordei triste, sem vontade de levantar da cama, e somente chorar. Por volta das onze horas da manhã a Soraia me ligou para confirmar minha ida ao show naquela noite. Embora eu não tivesse vontade alguma de pôr os pés na rua, confirmei que iria, pois ficar em casa chorando não iria resolver nada, e me distrair um pouco me faria bem, além do mais, NX Zero era uma das minhas bandas preferidas.
            O show aconteceria às seis horas da tarde. Antes de ir tomar banho para começar a me arrumar, entrei na internet para verificar meus e-mails. A tentação foi grande, e acabei não resistindo, passei pelo diário virtual do Cauê.
            Logo na página inicial havia uma foto nossa juntos, abraçados. Ao ver, meu coração bateu acelerado. Após um breve comentário feito pelo Cauê, uma letra de música expressava tudo que ele sentia e queria naquele instante.

Porta Retrato

Parecia um sonho
A gente ficar juntos
Andar a pé na chuva
Sem medo de amar...

Lembra!
De tudo que vivemos
Das tardes de domingo
Da mágica no olhar...

Aceitar que tudo se perdeu
Amor, não dá
Ouvir meu coração pedindo
Pra você voltar
Vai passando o tempo
E eu não sei
Me controlar
Não dá!
Ficar sem você
Não dá!...

Intérprete: Edson e Hudson
Composição: TIVAS/Carlos Randall

            Meu peito apertou. O sentimento que eu tinha pelo Cauê era forte demais, ao ponto de me fazer acordar com febre nas noites de sonhos em que não estávamos juntos. Uma lágrima desceu sem que eu pudesse controlar, e sobre meus olhos nossa história passava como um filme, uma linda história de amor.
            Tomei banho, arrumei-me todo e fiquei na sala aguardando pelo Kico e a Soraia, que passariam em casa para me buscarem antes de irmos ao show. Deitado ao sofá, o sono já começava a chegar quando ouvi a buzina do carro. Levantei-me do sofá e espiei pela janela para confirmar se eram eles, em seguida tranquei a porta de casa e entrei no carro.
            Aquela foi a primeira vez que eu andei com a Soraia sendo ela a condutora do veículo, e confesso que morri de inveja, pois ela sabia conduzir bem melhor que eu.
            O show estava lotado. Ficamos bem perto do palco, no camarote. Claro que nem preciso descrever a alegria que dominava o Kico, e por tabela a Soraia também, ao vê-lo tão contente.
            Ao som de Razões e emoções, lágrimas desciam de meus olhos sem que eu pudesse controlar. Olhar perdido, saudade intensa. A sensação que eu tinha era de estar preso dentro de um tubo de vidro, sem oxigênio, impossibilitado de respirar. Enquanto todos pulavam e cantavam eu permaneci calado, na companhia da tristeza que se hospedou em minha vida sem previsão de ir embora.
            Acariciando meu cabelo a Soraia disse:
-É ele... Não é?
-Sim...
-Tom, não fique assim, por favor. As coisas não devem ser levadas dessa forma...
-Sinto como se meu coração tivesse sido arrancado com a mão, de uma só vez...
-Miguxo... Pode ser que tenha acontecido algum mal entendido...
-Obrigado, lindinha... Mas tudo está muito claro.
            Dando-me um abraço ela falou:
-O tempo é o melhor amigo nessas horas.
            O tempo... Quanto tempo mais eu deveria esperar para que a vida me trouxesse a felicidade novamente? Difícil não é esperar, mas sim, não encontrar esperanças de que se pode mudar.