quarta-feira, 13 de julho de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 6


Dois dias se passaram, e durante esse período a Soraia não foi à faculdade. No segundo dia, ao chegar em casa fui telefonar para ela, pois teríamos que entregar o trabalho na semana seguinte e ainda não havíamos feito.
            Liguei em seu celular, mas deu caixa postal e em sua casa ninguém atendia. Depois de almoçar, digitei todas as informações por e-mail e enviei para ela, pedindo que me retornasse assim que recebesse. Até o momento em que fui dormir, não obtive nenhuma resposta, o que me deixou ainda mais preocupado.
            Antes de dormir esqueci de programar meu celular para despertar, fazendo com que eu perdesse a hora de ir à faculdade no dia seguinte. Durante a tarde telefonei pro Cauê para saber o que foi dado em sala de aula.
-Alô?
-Boa tarde! O Cauê está, dona Irene?
-Oi Rustom! O Cauê está dormindo.
-Ah!... Eu ligo mais tarde então.
-Rustom...
-Eu?
-Queria te agradecer pelo que você fez.
-O que eu fiz?
-Graças a você meu filho não foi injustiçado na faculdade...
-Não há do que me agradecer. Eu apenas fiz valer o direito de um cidadão. Se todas as pessoas desse país fossem unidas, jamais estaríamos passando por situações como essa.
-Eu sei... Mas o Cauê é muito ingênuo...
-Na verdade as pessoas abusam da deficiência que ele possui, mas isso vai ter que acabar.
-Sabendo que ele tem você para ajudá-lo eu fico bem mais tranquila...
-Pode deixar que na minha frente ninguém fará mal pro Cauê. Mais tarde eu volto a ligar para ele.
-Está bem.
-Tenha uma boa tarde!
-Igualmente.
            Desliguei o telefone e logo em seguida liguei para a Soraia. Após três tentativas, finalmente alguém atendeu ao telefone:
-Alô?
-Oi... Por favor, eu quero falar com a Soraia.
-Quem gostaria?
-É o Rustom.
-Oi Rustom! Aqui é a mãe dela...
-Tudo bem com a senhora?
-Não muito... Estou um pouco preocupada com a Soraia...
-Por quê? Aconteceu algo?
-Não sei... Ela não sai do quarto...
-Não sai do quarto?
-Às vezes quando chego do trabalho a vejo chorando, mas quando questiono o que aconteceu ela se cala...
-Que estranho!
-Você não gostaria de vim aqui e conversar com ela?
-Bem... Eu posso tentar...
-Hoje não fui trabalhar, tamanha minha preocupação... Estou acuada, sem saber o que fazer...
-Entendo... Daqui a pouco eu passo ai.
-Muito obrigada, Rustom!
-Por nada.
-Até mais.
            A Soraia sempre dizia ser muito sozinha, pois sua mãe sendo uma das executivas de uma grande empresa nacional do ramo alimentício, passava a maior parte de seu tempo trabalhando, com isso a Soraia tornou-se uma pessoa solitária e depressiva.
            Cheguei em sua casa, e ao tocar a campainha fui recebido pela sua mãe, que simpática dirigiu-se até o portão exclamando:
-Olá!
-Oi... A Soraia...
-Então você que é o Tom que a Soraia tanto fala...
-Bom... Só espero que ela fale bem de mim.
-Disso pode ter certeza.
            Entrando na sala perguntei:
-Onde ela está?
-No quarto... Você sobe a escada, segunda porta à direita.
-Tudo bem, obrigado!
-Por nada.
            Atravessei a enorme sala e subi por uma longa escada de madeira. Enquanto pisava aos degraus, um leve barulho soava, abafado pelo tapete forrado ao centro. Sua casa era enorme, e para duas pessoas apenas tornava-se ainda maior. Caminhando pelo corredor avistava ao final uma estátua sobre uma pequena mesa, enquanto uma cortina de renda dançava suavemente com o vento que entrava pela fresta de vidro.
            Bati à porta e esperei que respondesse:
-Entre!
-Licença...
-Tom!
            Caminhei em sua direção para dar-lhe um abraço. Pálida e abatida, levantou-se da cama onde estava deitada para receber-me.
-Que surpresa você aqui!
-Eu vim saber como você está...
-Não estou muito bem...
            Seu quarto era típico de uma patricinha. Em frente sua cama havia uma escrivaninha com um computador portátil sobre ela. A decoração se dividia entre branco e rosa, e o cheiro de chocolate prevalecia no ar. Pelo que pude notar a Soraia estava longe de ter problemas financeiros, pelo contrário, parecia ter uma vida bem confortável.
            Sentando-me à beira da cama questionei:
-Mas o que aconteceu?
            Chorando ela começou a explicar:
-Eu estava voltando da faculdade, e pra chegar mais rápido em casa resolvi pegar um micro-ônibus...
-Sei...
-Quando eu fui passar na catraca a cobradora disse pra eu descer pela porta da frente, porque se não eu ia entalar...
-Ela falou isso?
-Sim.
-Com essas palavras?
-Foi...
-E você não anotou os dados desse micro-ônibus?
-Na hora fiquei tão nervosa que desci um ponto antes.
-Que absurdo!

A renovação da frota dos ônibus que compõem o sistema de transporte coletivo urbano de passageiros de São Paulo não só traz mais segurança e conforto aos usuários, como também promove ganhos ambientais com a redução da emissão de poluentes no ar. Com a conclusão da incorporação desses novos ônibus ao sistema em 2008, o ar da Capital deixará de receber 1.500 toneladas de poluentes por ano.
Além de serem mais novas, maiores e mais confortáveis, as adaptações fixadas para os novos ônibus incluem o rebaixamento do piso, aumento da largura das portas, eliminação de obstáculos, transmissão automática, suspensão pneumática, limitadores de velocidade e áreas reservadas para cadeirantes e cão-guia. Os micro-ônibus (com apenas uma porta e corredor estreito) não serão mais aceitos no sistema de transporte. "A partir de agosto, todos os veículos deverão atender os critérios estabelecidos", informa o secretário municipal de Transportes.  (Prefeitura, 2007)

            Apesar das adaptações, as catracas dos veículos tornaram-se ainda menor, detalhe que não foi tratado nas adaptações e reestruturação dos carros.
            Ao levantar-me de sua cama, tropecei em uma caixa de bombons cheia de embalagens vazias. Abismado, não acreditei no que vi, pois a quantidade consumida era o equivalente à dez barras de chocolate.
-Soraia!... Você comeu tudo isso?
-Sim...
-Mas você acha que vai adiantar alguma coisa?
-Eu precisava... Estava muito triste, nervosa.
-Você come quando está ansiosa?
-Demais...
-E como é que você quer emagrecer comendo desse jeito?
-Eu sei... Mas a vontade de comer é mais forte do que eu...
-Desde quando você começou a sentir essa necessidade exagerada de comer?
-Acho que desde quando meus pais se separaram...
-E a partir de quando você começou a engordar?
-Desde essa época.
-Você já conversou com sua mãe sobre isso?
-Ela nunca tem tempo, sempre trabalhando... Fico muito sozinha, me sinto vazia.
-Sei... E a forma que encontrou para suprir essa necessidade foi a comida.
-Sim.
            Confesso que quando ela falou sobre “entalar na catraca” tive vontade de rir. Até seria cômico se não fosse trágico. Depois daquela conversa comecei a entender o porquê de sua tristeza no olhar, a compulsão pela comida.
            Nos últimos anos, o transtorno de comer compulsivamente vem sendo reconhecido como uma síndrome, da qual se caracteriza pela ingestão de alimentos mesmo sem ter fome. O que a difere da bulimia nervosa é a não tentativa de perca de peso utilizando métodos compensatórios, mesmo sofrendo por agir daquela forma. Pessoas que comem compulsoriamente despertam sentimentos de culpa e vergonha, além da sensação de falta de controle sobre o ato de comer. A maioria das pessoas que sofrem dessa síndrome são obesas, apresentando variações de peso constante, pois a comida é um refúgio para seus problemas psicológicos.
            Fiquei triste em ver minha amiga naquela situação sem muito poder fazer. Assim como ela existem milhões de pessoas pelo mundo a fora sofrendo pelo mesmo problema, mas sem saber como nem para quem pedir ajuda.
            A obesidade é uma enfermidade que se caracteriza pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, associada a problemas de saúde, trazendo prejuízos ao bem estar. Ela se desenvolve em diversas etapas, podendo ser motivada através de herança genética, por questões socioeconômicas, ambientes individuais ou familiares, até mesmo cultural e educativo. Com isso, uma pessoa pode apresentar algumas características que a distinguem, principalmente na sua saúde e nutrição.
            Depois que nos despedimos, deixei seu quarto e descia a escada quando sua mãe abordou-me:
-Tom...
-Oi!
-Você conversou com ela?
-Sim.
            Sentando-se ao sofá e deixando seu computador portátil de lado ela perguntou:
-Por favor, sente-se... O que ela disse a você?
-Desculpe por eu falar dessa forma, mas a senhora não está sendo uma boa mãe.
-Foi isso que ela lhe disse?
-Não... Quer dizer, não com essas palavras.
-Como assim?
            Sentando-me ao sofá respondi:
-Eu não sou psicólogo, mas nem precisa ser profissional da área para perceber que o problema de sua filha é carência.
-Carência? Nunca deixei que faltasse nada à Soraia...
-Tem certeza?... Quando foi a ultima vez que vocês duas almoçaram juntas sentadas à mesa?
            Calada, baixou sua cabeça.
-A Soraia está sofrendo muito, sentindo-se sozinha, e todos esses problemas começaram na separação...
-Refere-se a minha e do pai dela?
-Claro.
-Eu vou conversar com ela...
-Bem... Eu preciso ir.
-Tom, muito obrigada por ter me contado...
            Parado próximo à porta, respondi:
-Sabe por que o mundo está cada vez mais difícil, e as pessoas, cada vez mais violentas?
-Não...
-Porque não tem quem os ouça...
-Eu...
-Se essas pessoas tivessem recebido o amor de pai e mãe em sua formação, fossem ouvidos, com certeza não precisariam chamar atenção dessa forma, e o mundo seria bem menos violento.
-Você fala de uma forma tão melancólica...
-Sofro até hoje as consequências de ser desprezado pelo pai, e você não imagina o quanto dói uma palavra ruim vinda de alguém que você só gostaria de ouvir coisas boas, que pudesse confiar...
-Entendo...
-Os pais são as únicas pessoas que os filhos confiam, e se eles não passam confiança, em que ou quem irão acreditar? Olhe mais para sua filha... Ainda há tempo.
            Levantando-se e se aproximando de mim ela falou:
-Aquele que não enxerga o garoto maravilhoso que você é, só pode ser uma pessoa do mal.
-Acredito que não... Não culpo as pessoas por isso... Somente os seres especiais sabem o significado de amar de verdade, pois o amor é um sentimento nobre, que Deus dá somente aos merecedores.

            Demos um abraço, em seguida fui embora.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPÍTULO 5


        Algumas semanas se passaram. Já estávamos na metade do semestre, e o primeiro ciclo de provas começava a se aproximar. Acordei angustiado em uma manhã de quarta feira. Após arrumar o cabelo, desci para tomar café da manhã com minha mãe.
            Sentei-me ao seu lado e enquanto cortava um pedaço de bolo questionei:
-Aconteceu alguma coisa, mãe?
-Não... Por quê?
-Tenho notado certa tristeza em seu olhar.
-Tristeza?
-É... E não é de agora.
-Impressão sua, Rustom.
-Mãe, está acontecendo alguma coisa que você quer contar?
-Não, querido... Está tudo bem.
-Tá bom... Caso queira me dizer, vou estar sempre disposto a te ouvir.
            Levantando-se da mesa ela falou:
-Vou buscar minha bolsa no quarto para sairmos.
-E eu vou escovar meus dentes enquanto isso.
-Não demore.
-Tá.
            Escovei os dentes rapidamente e fui esperá-la no carro. Minha mãe estava diferente, melancólica, embora tentasse disfarçar era perceptível seu estado emocional abalado.
            Seguimos calados pela Marginal até que eu, incomodado, questionei:
-Podemos almoçar juntos hoje?
-Hoje?
-Sim...
-Tudo bem.
-Assim que eu sair da faculdade eu te encontro no shopping.
-Por que no shopping?
-Porque sim, ué.
-Mas Rustom, nós podemos almoçar na lanchonete...
-Não... Prefiro em outro lugar.
-Tá... Então eu passo na faculdade para te buscar.
-Ótimo!
            Despedimo-nos com um beijo no rosto e segui para a aula. Fechei a porta do carro, arrumei a mochila nas costas e segui em direção à escada rolante.
            Cheguei um pouco atrasado, pois o trânsito estava parado. No segundo andar, a escada rolante estava em manutenção, com isso tive que ir até o hall pegar o elevador. Enquanto aguardava notei certa movimentação de seguranças fora do comum.
            Já no sétimo andar, caminhava em direção à sala de aula, quando avistei metade dos alunos tumultuando o corredor.
            Ao me ver chegando, a Soraia correu até mim e ofegante ela disse:
-Tom... Ainda bem que você chegou...
-Por quê? O que houve?
-O Emílio...
-Fala logo?
-O Emílio mordeu a Jéssica.
-Mordeu? Como?
-O pessoal diz que ele teve um ataque de fúria...
-Cadê o Cauê?
-Está na coordenação.
-Na coordenação?
-É...
            Dei meia volta e segui para a coordenação. Correndo a Soraia tentava me acompanhar perguntando:
-Tom... Aonde você vai?
-Vou ver como ele está...
-Mas pediram que apenas as testemunhas comparecessem.
-E você acha que eu vou deixar de apoiá-lo no momento em que mais precisa de mim?
-Eu vou com você.
-Então vamos.
            Chegando à reitoria havia dois seguranças na porta. Ao tentar entrar fui logo impedido por um deles.
-Pode falar?
-Eu preciso entrar...
-No momento não é possível.
-É possível sim... Eu sou testemunha do caso do cachorro.
-Tudo bem, entre.
            Caminhei por um curto corredor até avistar o Cauê, sentado em um banco, isolado, chorando calado. Segui em sua direção e ele logo percebeu minha presença:
-Tom?
-Sim, sou eu, amor.
            Dei-lhe um abraço.
-Tom... Querem tirar o Emilio de mim.
-Por quê?
-Porque estão dizendo que ele mordeu a Jéssica.
-E ele mordeu?
-Não sei...
            Com os braços cruzados e a cabeça pendida, a Soraia falou:
-Ele chegou a morder sim.
-Mas o Emílio não é de morder ninguém...
            Acariciando sua face concordei:
-Eu sei... Essa história está muito mal contada...
            Sentada ao lado do Cauê a Soraia perguntou:
-Cadê seu cachorro?
-Não sei onde o Emílio está...
            Revoltado, questionei:
-E por que você está aqui cercado como se fosse um criminoso? Vamos procurar o Emílio...
-Mas eu não posso sair daqui, estou esperando minha mãe trazer a carteirinha de vacinação dele.
-Está bem. Vou ficar aqui com você então.
-Não... Volte para a sala e tente descobrir o que realmente aconteceu.
-Mas Cauê...
-Por favor, Tom?
-Está bem. Qualquer coisa me avisa.
-Pode deixar. Vamos, Soraia.
-Vamos!
-Tchau.
-Tchau.
            Deixei a reitoria e voltei para a sala de aula. Seguindo em direção ao sanitário a Soraia falou:
-Eu vou ao banheiro...
-Tudo bem.
            O professor já explicava a matéria posta à lousa. Sentei-me à cadeira e comecei a copiar ao mesmo tempo em que ele falava. Olhando-me diferente a Cátia e a Bruna entraram na sala, seguindo para suas respectivas cadeiras.
            Pouco tempo depois chegou a Soraia, aflita. Após sentar-se na carteira atrás de mim ela tocou em meu ombro dizendo:
-Tom...
-Sim?
-Preciso te contar uma coisa...
            Virei-me de frente para ela.
-Diga?
            Sussurrando ela começou a falar:
-Eu estava no banheiro, com a porta do box fechada eu só ouvi as vozes...
-Fale logo, estou ficando irritado.
-É que eu ouvi a Bruna e a Cátia comentarem no banheiro que o Emílio mordeu a Jéssica de propósito...
-De propósito? Como assim?
-É... Não entendo o motivo, mas parece que ela colocou o pé na frente do Cauê para ele cair...
-Maldita!
-Mas antes disse que ela sujou a carteira dele com tinta de caneta.
-Mas qual finalidade disso?
-Provavelmente o expor ao ridículo, já que o Cauê está de calça clara...
            Levantei-me da carteira e fui até a que o Cauê costumava sentar-se. Notei que realmente o assento de sua cadeira estava sujo de tinta fresca. Tirei meu celular do bolso e fotografei a prova. Guardei-o novamente e deixei a sala.
            Eu queria entender até onde iria tanta perversidade e o motivo dela. Uma pessoa que não fazia mal a ninguém, não havia motivo ou justificativa para tanta maldade.
            Segui para a enfermaria soltando fogo pelas ventas. Covardia me revoltava. Minha vontade naquele momento era de esfregar a cara da Jéssica naquele monte de tinta sobre a cadeira. Não demorou muito e a Soraia apareceu, correndo atrás de mim e chamando pelo meu nome:
-Tom... Tom... Espere...
-Não estou com tempo disponível para perder...
-Tom, você está nervoso... Precisa se acalmar...
-Acalmar? E se o Cauê caísse na escada? Você tem ciência de que ele poderia ter morrido?
-Que horror!
-Horror é essa violência provocada por jovens que esse país vem passando.
            Entrei na enfermaria e logo avistei a Jéssica, deitada sobre a maca de olhos fechados. Aproveitando que a enfermeira não estava, disse à Soraia enquanto fechava a porta:
-Vigie a porta.
-Tá.
            Percebendo minha presença na sala do ambulatório, a Jéssica abriu os olhos e surpresa exclamou:
-Rustom!
-Vim saber como você está...
            Com a maior falsidade ela se fez de vítima, achando que eu acreditaria em seu teatro amador:
-Obrigada! Estou bem, apesar de um pouco traumatizada.
-Traumatizada...
            Aproximei-me dela e toquei em seu pulso direito. Olhando em seus olhos eu o apertei e disse:
-Acha que tenho cara de trouxa para acreditar em você?
-Ai... Você está me machucando...
-Isso não é nada perto do que você merece... Deixe eu ver sua mão...
-O que tem minha mão?
            Peguei sua mão esquerda, e ao abri-la confirmei que estava sujo de tinta de caneta. Uma fúria enorme consumia-me por dentro. Soltei-a exclamando:
-Eu sabia!
-Sabia o quê?
-Se você pensa que vou deixar barato isso que você fez com o Cauê está muito enganada.
-O que você vai fazer? Me bater?
-Não posso, embora eu tenha vontade...
            Segurando à porta a Soraia disse:
-Mas eu posso...
-Cala essa boca, baleia Orca.
-Calma, Soraia... Não vale a pena perder a razão pagando na mesma moeda... Tenho ideia melhor.
            Ironizando a Jéssica falou:
-Nossa... Nem vou dormir à noite de tanto medo.
-Deboche o quanto quiser.
            Deixando a enfermaria, falei:
-Em breve você terá noticias minhas.
            A reação dela foi como eu já esperava, fazendo pouco caso da situação e menosprezando aqueles que julgam inferiores. Claro que não iria deixar barato, pois aqueles imbecis tinham que levar uma lição para aprender a nunca mais mexer com quem não conhece.
            Caminhava pelo corredor sentido o elevador quando a Soraia questionou:
-Onde você está indo, Tom?
-À coordenação.
            Enquanto aguardávamos ela desabafou:
-Por pouco eu não quebrei a cara daquela enjoada...
-Oportunidades não faltarão...
            Ao chegarmos à coordenação avistei o Cauê sentado no mesmo lugar, chorando, enquanto o outro coordenador do curso dava-lhe uma bronca:
-O seu cachorro colocou a vida de um aluno em risco. Você foi irresponsável em...
            Revoltado o interrompi:
-Mas o que é isso?
-Quem são vocês?
-Somos testemunhas de que o animal só mordeu a Jéssica para defender seu dono.
-Mas do que você está falando?
            Tirei o celular do bolso e mostrei a foto dizendo:
-Isso é o resultado de um ato de vandalismo e violência injustificável contra uma pessoa que não dispõe de condições físicas para defender-se sozinha.
            Após tirar parte de sua franja do olho a Soraia iniciou o relato sobre o fato.
-A Jéssica sujou a cadeira do Cauê com tinta de caneta para que ele se sentasse e marcasse sua roupa, e depois disso ela colocou o pé na frente do Cauê quando ele caminhava para a sala, foi nesse momento que o Emilio mordeu sua perna.
-Vocês tem como provar?
            Irritado, questionei:
-Olha, você me desculpe, mas a impressão que tenho é de que você não quer acreditar em nós. Há algum preconceito pelo fato do Cauê ser bolsista e deficiente?
-Não é bem assim...
-Isso é crime e nós podemos abrir um processo contra essa instituição.
-Você é muito arredio, rapaz.
-Não, apenas não gosto de injustiças e covardia. Agora, como aluno eu exijo que as imagens da dependência do prédio sejam examinadas.
            Percebendo que não estava lhe dando com nenhum leigo, parou para nos ouvir.
-Eu... Vou pedir para que chequem as filmagens...
-Ótimo. E quanto à criminosa?
-Quem?
-A aluna que agrediu nosso colega. Ela precisa ser punida, não acha?
-Primeiro precisamos comprovar a culpa...
-Considera pouca a imagem que te mostrei da cadeira toda suja?
-Qualquer outro aluno poderia ter feito aquilo...
-Pois então vá até a enfermaria e veja sua mão esquerda suja com a mesma tinta. Detalhe: ela é canhota.
            No mesmo instante ele dirigiu-se até a enfermaria para verificar a veracidade da informação que eu havia lhe passado. Fiz questão de acompanhá-lo e ver de perto sua cara após confirmar o que eu havia dito. Durante o caminho ele permaneceu calado, acompanhado por dois seguranças, utilizando as escadas ao invés do elevador.
            Ao entrarmos na enfermaria cruzamos com a Jéssica que já deixava o local acompanhada pela enfermeira. Trancando a porta o coordenador questionou:
-Aonde você ia?
            Tomando à frente a enfermeira respondeu:
-Ela será encaminhada para um hospital, precisa tomar a vacina antirrábica.
-Sim, mas antes quero conversar com ela.
-Desculpe, mas agora não estou muito bem para lembrar e falar sobre o horrível episódio com esse violento cão.
            Tirando a franja do olho eu respondi:
-O Emílio não é violento.
            Mostrando sua autoridade o coordenador pediu:
-Mostre sua mão esquerda, Jéssica.
            Sem graça, ela ficou sem reação.
-Mas... O que tem minha mão?
-Quero checar uma informação...
-Informação?... De que está falando?
-Você foi acusada de ter sabotado um assento...
-Mas que absurdo!
-Pode mostrar-me sua mão, por favor?
            Ao mesmo tempo em que a escondia, a Jéssica tentava argumentar:
-O que vocês estão querendo? Não vê que estou ferida? Abalada?
-Eu compreendo que a situação seja desagradável, mas preciso comprovar a veracidade das acusações.
-Nunca fui tão humilhada em toda minha vida...
            Irritado, caminhei até ela e peguei em seu braço, abrindo sua mão logo em seguida. Para minha surpresa sua mão estava limpa, sem nenhum resíduo de tinta.
            Confuso, questionei:
-Ué... Cadê a tinta?
            Antes que a Jéssica respondesse a enfermeira foi logo adiantando:
-Ela lavou a mão agora a pouco para tirar aquele monte de tinta.
-Cale a boca, sua enfermeira estúpida.
            Apertando seu braço o coordenador disse:
-Cale a boca você. Está pensando o quê?
-Isso é jeito de falar comigo? Eu pago seu salário...
-Lamento, mas em meu holerite não vem escrito seu nome. O seu dinheiro é investido em conhecimento que a faculdade lhe oferece, uma remuneração pelos serviços que são prestados. O fato de você pagar para utilizar nossas dependências e serviços não quer dizer que poderá fazer o que quiser sem ser advertida ou punida.
            Calada, ela o olhava espantada.
-Devido a todo esse ocorrido de hoje, eu peço que compareça amanhã em minha sala...
-Para quê?
-Quero conversar com você...
-Referente a...?
-A sua denuncia contra o cão-guia do Cauê Proença.
-Tudo que eu tinha a dizer já disse, não vou ficar repetindo a mesma coisa um milhão de vezes.
-Não será necessário repetir novamente, apenas quero conversar com você.
-Está bem, amanhã antes da aula eu passo na coordenação.
-Obrigado.
            Passamos a manhã inteira envolvidos com aquele tumulto provocado pela Jéssica. Acabei nem assistindo aula, pois permaneci com o Cauê o tempo inteiro, dando força e carinho que era o que ele precisava naquele momento.
            No horário de saída minha mãe telefonou-me dizendo que já esperava por mim em frente ao campus. Despedi-me do Cauê e de sua mãe que já havia chego e saí. Abria a porta do carro quando minha mãe reclamava:
-Nossa... Que demora...
-É que aconteceu algo meio chato hoje...
-O que houve?
-Uma aluna tentou agredir o Cauê e o cão-guia dele mordeu ela.
-Mas agredir por quê?
-Por maldade. Só porque ele é cego.
-Que horror! E não fizeram nada com essa aluna?
-Ainda não sei o que vai acontecer com ela. Acredita que o coordenador estava quase expulsando o Cauê da universidade?
-Sem verificar as duas partes?
-É... Na verdade foi uma demonstração clara de preconceito.
-Porque ele é cego?
-Também, além de ser bolsista.
            Chegamos à churrascaria. Desci do carro primeiro, enquanto minha mãe pegava sua bolsa e procurava seu anel que deixara cair ao puxar o freio de mão. Após entregar a chave para o manobrista, cruzamos a porta e caminhamos em direção à uma mesa ao lado da janela, com vista para a Marginal.
            Sentei-me à cadeira. Após um suspiro minha mãe perguntou:
-Já quer pedir as bebidas?
-Pede pra mim. Eu vou pegar um pouco de risoto de camarão...
            Eu já havia levantando-me da cadeira quando ela questionou:
-O que você vai querer beber?
-Pode pedir um guaraná.
-Tá bom.
            Peguei um prato e fui até o Buffet que ficava embaixo de um lindo e enorme aquário azul. Segurando os talheres e o prato acabei me entretendo com os enormes peixes que nadavam lentamente.
            A churrascaria era ótima. A mobília feita de madeira bem trabalhada, cadeiras confortáveis, e nas janelas havia cortinas claras que combinavam com as paredes texturizadas. O que eu mais gostava era da mesa de sobremesas que ficavam perto da cascata d'água, ao lado do aquário. Era uma mais gostosa que a outra, e sempre quando eu e minha mãe íamos, eu pedia para embrulharem alguma que não conseguia terminar de comer.
            Peguei um pouco de salada, batata palha e o risoto de camarão, em seguida voltei à mesa. Coloquei o prato sobre a mesa. Levantando-se da cadeira minha mãe disse:
-O rapaz já vai trazer nossas bebidas. Eu vou pegar um pouco de salada e já volto.
-Certo.
            Enquanto ela se servia, o garçom nos trouxe as bebidas. Após abrir a lata, despejou o refrigerante dentro do copo para mim, que já veio com uma fina rodela de limão e duas pedras de gelo.
            Dei a primeira garfada no arroz, logo em seguida minha mãe voltou à mesa dizendo:
-Hum... Essa salada de berinjela está com uma cara ótima...
-Eu percebi, mas vou deixar para depois.
-Isso aqui é sal?
-Deixa eu ver...  Não, é açúcar.
-Ah!... Esse aqui é o sal... O sache é menor...
-Mãe...
-Hum?
-Há dias eu venho notado em você um comportamento estranho.
-Comportamento estranho em mim?
-O que está acontecendo?
-Nada, meu querido...
-Como nada? Você está estranha... Se abra comigo...
            Nesse momento tirei seus óculos escuros e vi o hematoma roxo próximo ao seu olho. Fiquei abismado. Constrangida ela tentava esconder, calada, sentindo vergonha de si mesma.
-O que é isso no seu olho?
            Pegando seus óculos da minha mão, suspirou agoniada sem nada dizer. Apenas o barulho do talher tocando o prato soava. Agoniado questionei novamente:
-Responda... O que foi isso no seu olho? Aquele mal amado te bateu outra vez?
-Ele não teve culpa... Estávamos discutindo e sem querer ele me empurrou e eu caí...
-Como da outra vez?... Para de tentar amenizar a situação... Ninguém empurra ninguém sem querer...
            Cabisbaixa ela não disse nada.
-Você precisa ir a uma delegacia prestar queixa.
-Não!
-Como não? Isso não pode ficar assim...
-Eu já falei, foi um acidente...
-É difícil acreditar, sabia?
            Silêncio.
-Esquece isso, Tom.
-Não dá pra esquecer... Mas de qualquer forma, não posso lhe obrigar a nada.
            Toquei em sua mão.
-Promete que se ele tocar em você novamente, irá me avisar?
            Fazendo sinal com a cabeça ela confirmou, assim continuamos nosso almoço. Há anos eu não via minha mãe sorrir de verdade, se olhar no espelho e se sentir mulher ao invés de um objeto.

sábado, 9 de julho de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 4



         No outro dia acordei um pouco mais cedo. Olhei no relógio e ainda eram seis horas. Peguei minha toalha e fui para o banheiro tomar banho. Deixava aquela água quente massagear minha nuca de olhos fechados, levando parte do stress embora.
            Ensaboava meu cabelo quando ouvi fortes batidas à porta. Pouco tempo depois ouvi meu pai gritando:
-Você vai demorar muito ai, caralho?... Você está me ouvindo?
-Já estou saindo.
-Não me responde assim... Me respeite que eu sou teu pai... Duas hora dentro desse banheiro, porra...
            Eu nem sabia que ele tinha voltado, o que me deixou surpreso. Desliguei o chuveiro e olhei que horas eram em meu relógio. Não fazia muito tempo que eu havia entrado, pois ainda eram 6 horas e 12 minutos. Na verdade ele queria uma desculpa para brigar comigo, e não teve caráter suficiente para fazer sem motivos e viu naquele momento a oportunidade de criar um pretexto.
            Desde criança eu percebia em meu pai certa intolerância com a minha pessoa, encontrando sempre um motivo para me agredir verbalmente, mesmo sem dar motivos para isso.
            Ao sair do banheiro ele continuou a falar:
-Quarenta minuto no banho, rapaz?
-Não faz nem quinze minutos que eu entrei. Você quer um motivo para me agredir e fica com desculpas.
            Nesse momento minha mãe apareceu:
-Você cala essa boca. Eu sou teu pai, você me respeita.
            Eu não havia falado nada demais, e diferente dele, minha voz estava calma e controlada, mesmo assim ele colocou o dedo na minha cara enquanto falava. Apreensiva, minha mãe o segurava, sem entender o motivo de tanta ira.
-Está pensando que você é o quê? Seu bosta.
            Fechei a porta do quarto chorando. Jamais esperava aquela reação do meu pai, pois ele estava sendo injusto e covarde, por inventar uma desculpa qualquer para dizer tudo que pensava a meu respeito.
            Enquanto vestia minha roupa, conseguia ouvir seus gritos discutindo com minha mãe:
-Você está exagerando... Você viu como falou com seu filho?
-Foda-se... Nunca foi...
-Você está parecendo um louco...
-Fica defendendo... Você só defende quem não presta.
-É meu filho, claro que vou defender.
-Você tinha que ficar do meu lado, porque eu sou seu marido... Espera que você vai ver a recompensa que ele vai te dar no futuro.
-Eu não espero recompensa nenhuma, faço porque sou mãe, carreguei durante nove meses, tive dor... Não troco meu filho por homem nenhum.
            Antes de sair do quarto, coloquei meus óculos escuros para ninguém ver que eu estava chorando. Todas aquelas palavras que ele proferiu doeram fundo, não porque foram feias ou impróprias, mas por eu não merecer, atravessando meu peito como uma lança.
            Desde criança, nunca fui de chorar fácil, porém, naquele dia por mais que eu segurasse, as lágrimas insistiam em descer.
            Cheguei à faculdade a aula já havia começado. Sentei-me ao lado do Cauê que logo se virou dizendo:
-Bom dia, Tom!
-Bom dia!
            Sussurrando o Cauê perguntou:
-Você não está bem. O que aconteceu?
-Depois eu te conto.
-Tudo bem.
            Enquanto o professor passava um texto no quadro perguntei ao Cauê:
-Faz tempo que a aula começou?
-Não... Ele também chegou um pouco atrasado...
-Tá bom.
            A aula estava um pouco chata, sorte que havia apenas duas aulas naquele dia, sendo apenas no primeiro período. As horas pareciam não passar, e o professor de Sociologia gostava de falar muito.
            Sentando-se em sua cadeira ele disse em voz alta:
-Galera... A data de entrega do trabalho eu vou enviar por e-mail...
            Após um leve suspiro o Cauê disse:
-Tom?
-Oi?
-A Soraia pediu para entrar pro nosso grupo pra fazer o trabalho...
-Ué... Ela está sozinha?
-Sim...
-Mas o trabalho não é em dupla?
-Pode ser em trio.
-Ah!... Por mim tudo bem.
-Depois eu falo com ela então.
            Assim que o professor terminou a aula, guardei meu fichário dentro da mochila e esperei pelo Cauê próximo à porta. Com o auxílio de sua vareta ele caminhou em minha direção.
            Esboçando um leve sorriso ele perguntou:
-Para onde vamos?
-Não sei... Você tem alguma ideia?
-Sim... Aceita almoçar comigo?
-Claro! Onde?
-Em minha casa.
-Nossa!
-O quê?
-Eu tenho vergonha...
-Vergonha de quê?
-Não estou bem vestido...
-Pra mim você está lindo!
-Isso é o que mais me fascina em você.
-O quê?
-A forma como você vê o mundo...
-Você topa almoçar comigo em minha casa?
-Não tenho como negar um pedido seu, mozinho.
            Eu estava apaixonado, isso não podia negar. De todas as paixões que eu já tive em minha vida, a que eu sentia pelo Cauê era diferente, pois ele gostava de mim pelo que eu era e não pelo que eu aparentava ser. O que mais me fazia apaixonar era seu jeito meigo de ser, carinhoso, atencioso.
            Chegamos a sua casa e logo da calçada ouvi os latidos do Emílio.  Abrindo o portão do quintal o Cauê falou:
-Seja bem vindo à minha casa!
-Obrigado!
            Antes que ele tocasse na maçaneta sua mãe abriu a porta. Com um sorriso estampado na face ela exclamou:
-Oi!
-Mãe... Eu trouxe o Tom para almoçar com a gente.
-Então você que é o Tom?
-Acho que sim.
-Entrem...
-Pelo visto a senhora já me conhece...
-Claro! O Cauê só fala em você.
-Sério?
-Minha mãe estava morrendo de curiosidade para conhecê-lo, de tanto que eu falo em você pra ela...
-E ele fala bem ou mal?
-Claro que falo bem.
            Encostando a porta sua mãe disse:
-Sente-se, Tom... O almoço está quase pronto.
-Olha dona...
-Irene.
-Dona Irene, não quero dar trabalho...
-Não é trabalho nenhum.
            Enquanto ela dirigiu-se à cozinha o Cauê falou:
-Viu só como minha mãe é legal?
-Sim...
-Eu sei que sua cabeça está confusa.
-Confusa?
-É... Pelo fato da minha mãe ser negra e eu ser branco...
            Confesso que a primeira vista fiquei confuso em saber que sua mãe era negra, mas tudo começou a fazer sentido quando ele revelou ser adotado. Por mais que eu negue, aquela atitude que tive foi preconceituosa, mas não por que eu quis, mas sim por consequência de estímulos recebidos desde a infância pelo meio social em que vivemos.
            Sem graça, perguntei:
-Você tem o poder de ler pensamentos, agora?
-Não, mas tenho o poder de entender as pessoas que gosto.
-Eu... Bom, a primeira vista eu estranhei sim. Desculpa falar isso.
-Não precisa se desculpar, você não é diferente de ninguém...
-Fiquei sem graça, agora.
-Não precisa tanto. A Irene me adotou quando eu tinha um ano de idade...
-E sua mãe verdadeira?
-Você quer dizer biológica?
-Isso!
-Não sei... Sinceramente não me faz um pingo de falta. A Irene me deu tudo o que eu precisava que é amor, caráter, formação...
-Bom, melhor mudarmos de assunto.
            Nesse momento a Irene voltou à sala dizendo:
-Meninos, a comida está na mesa.
-Oba!
-Hum... Pelo cheiro sua comida deve ser muito boa mesmo, dona Irene.
-Imagine.
-Minha mãe cozinha como ninguém.
-Parem com isso vocês dois.
            Sentamos à mesa e continuamos a conversar durante a refeição:
-A senhora trabalha com o quê?
-Eu sou enfermeira por formação.
            Segurando o copo o Cauê falou:
-Minha mãe trabalha no hospital do câncer.
-E também na emergência de um hospital público.

            A comida estava maravilhosa, assim como a conversa que estávamos tendo. Sua mãe era muito simpática, atenciosa, assim como o filho.