terça-feira, 26 de julho de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 9



Ao chegarmos à casa do Cauê, desci para o acompanhar. Despedimo-nos da Soraia que permaneceu no carro, seguindo para sua casa logo em seguida. Parados em frente ao portão, dei um abraço em meu mais novo namorado. Nossos corpos juntos, sentindo o calor de sua pele faziam-me um bem enorme, como um remédio para as soluções dos meus problemas.
            Tocando em meu rosto o Cauê disse com a voz embargada:
-Tom... Eu quero ser seu... Só seu... Por completo...
-Você já é meu desde quando te tirei daquela piscina...
            Encostei-me à parede e recomeçamos a nos beijar. Suas mãos exploravam minhas costas com suaves toques, caricias leves que me faziam arrepiar. No intervalo de um beijo e outro olhei no relógio e já passava da meia noite.
-Caramba!
-O que foi?
-Já são meia noite e quarenta... Como vou embora agora?
-Não vá... Durma aqui comigo...
-Dormir aqui?
-É...
-Mas sua mãe...
-Ela não irá se importar... A gente explica a causa para ela amanhã...
-Bem... Então tudo bem... Só vou ligar para minha mãe e dizer que não dormirei em casa.
-Sim, meu amor.
            Telefonei para minha mãe e avisei que não dormiria em casa. Embora não fosse muito favorável à ideia, não restou outra alternativa, pois não havia mais transporte pelo horário e ir até lá me buscar seria difícil pelo fato de já ser noite e ela não conhecer a região.
            Ao entrarmos, seguimos direto para a cozinha. Puxando uma cadeira o Cauê perguntou-me:
-Amor... Você está com fome?
-Um pouco.
-Minha mãe deve ter deixado algo pronto aqui... Você pode ver se está dentro do micro-ondas?
-Claro, mozinho.
            Abri a porta do micro-ondas e logo avistei metade de uma torta de frango que parecia estar com uma cara ótima.
-Meu príncipe... Tem torta de frango...
-Oba! Esquenta pra mim, por favor?
-Claro!
            Enquanto a torta aquecia, eu e o Cauê arrumávamos à mesa para jantarmos. O silêncio da madrugada me fazia um bem enorme, em todos os sentidos, levando-me a um estado de paz.
            Sempre quando eu me sentia sozinho, subia no telhado e passava a madrugada inteira pensando na vida, enquanto a cidade continuava trabalhando sem parar. As luzes dos grandes prédios formavam um lindo cenário, abrigando meus pensamentos e acolhendo-me nos meus momentos de tristeza.
            Sentados à mesa, jantávamos a torta de frango, que por sinal estava maravilhosa quando o Cauê disse:
-Está ouvindo esse barulho?
-Que barulho?
-De carros.
-Não ouço barulho algum...
-É porque está bem baixinho...
-Certamente.
-Esses carros devem estar bem longe daqui...
-Bota longe nisso.
-Sabe que eu adoro esse barulho de São Paulo?
-Sério?
-É... Barulho de cidade grande à noite...
-Hum... Eu também adoro!
-Enquanto alguns dormem, outros trabalham...
-Pois é. Essa cidade não para.
            Após dar um gole em seu suco de abacaxi o Cauê perguntou:
-Tom...
-Hum?
-Como é à noite?
-Em que sentido?
-Todos!
-Bem... A noite é escura, mais fresca...
-É muito escuro?
-Não. A lua ilumina parte dela, mas não como o sol faz com o dia.
-Ah!
-Durante a noite o céu fica coberto de estrelas...
-E como são as estrelas?
-Lindas! Brilham bastante, cobrindo com beleza nossos telhados.
-Eu lembro que na escola aprendi que elas ficam muito longe da Terra.
-Isso é verdade.
-Devem ser lindas mesmo.
-Seu eu pudesse te daria de presente.
-Deus já me deu o melhor presente do mundo: você.
            Naquele momento toquei em sua mão, sentindo-me o cara mais feliz do mundo. O Cauê foi um presente de Deus, e juntos viveríamos para sempre, unidos pelo sentimento mais nobre do mundo que é o Amor.
            Após jantarmos, seguimos para seu quarto, pois meus olhos já estavam pregando de sono. Fechei a porta assim que entramos. A janela de seu quarto estava aberta, deixando o ambiente bem agradável e fresco.
            Depois de colocar um CD pra tocar o Cauê sentou-se em sua cama, e tirando seu tênis ele falou:
-Você se importa de dormir em minha cama?
-Não se preocupe, mozinho... Eu posso dormir no tapete mesmo.
-Por que no tapete?... Você é meu namorado, pode dormir comigo. Ao menos que você não queira.
-Não quero dormir com você.
-Não?
-Não só dormir, mas também acordar, tomar banho...
-Hum... E fazer amor?
-Também!
            A luz do quarto já estava apagada quando o Cauê tocou em minha mão e pediu:
-Tom, me beija?
            Silêncio entre nós. Fechei meus olhos e iniciamos nosso beijo, um beijo único, singular. Apenas nossos corpos falavam, acompanhados pelas fortes batidas de nossos corações.
            De fundo o barulho da cidade se misturava ao som de Não vá embora – Marisa Monte. Abraçados, nos deitamos. Suas mãos tocavam minha face como se pudessem enxergar minha alma, meus pensamentos, enquanto a letra da música falava por nós.

Não Vá Embora

E no meio de tanta gente eu encontrei você
Entre tanta gente chata sem nenhuma graça, você veio
E eu que pensava que não ia me apaixonar
Nunca mais na vida

Eu podia ficar feio só perdido
Mas com você eu fico muito mais bonito
Mais esperto
E podia estar tudo agora dando errado pra mim
Mas com você dá certo

Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca, nunca mais

Intérprete: Marisa Monte
Composição: Marisa Monte

            Sussurrando ele falou em meu ouvido:
-Faça-me feliz, Tom?
            Depois de um intenso suspiro, respondi:
-Como?
-Torne-me seu... Por completo.
            Com sua mão direita ele tocou em minha esquerda e a levou em direção ao botão de sua calça. Voltei a beijá-lo, sem questionar mais nada. Peça por peça fomos nos despindo, até ficarmos totalmente nus. Abraçados, podíamos sentir as batidas do coração um do outro.
            Eu já transei com outros meninos anteriormente, mas nunca havia sentido satisfação como aquela, um estado de felicidade plena.
            Ao tocar em sua cintura, o Cauê falou:
-Preciso te dizer algo...
-O quê?
-Eu... Eu nunca fiz...
-Você é virgem?
-Sim...
-Oh!
-Decepcionei você?
            Respondi primeiramente com um beijo em sua testa.
-Claro que não... Você é muito especial, sabia?
-Eu amo você, Tom!
-Também te amo.
            Nossos lábios se tocavam carinhosamente, em um beijo calmo, molhado e repleto de sentimento sincero. A sensação que eu vivia naquele momento jamais sentira antes, impossível descrever.
            A noite estava linda. O vento fresco que entrava pela janela refrescava-nos do suor provocado pelo clima que rolava no quarto, e a luz da lua, que ao tocar nossas peles recarregava nossas energias consumidas no momento em que fazíamos amor.
            Nossos corpos pela primeira vez sentiram um ao outro, em um verdadeiro e profundo toque de pele. Sem pelos, trocávamos suores e beijos, que se tornavam cada vez mais intensos.
            Aquele foi o melhor momento da minha vida, inesquecível, único, mágico, eternizado por nós, tendo apenas as paredes brancas de seu quarto como testemunha.
            Enquanto fazíamos os movimentos pélvicos, dei-lhe um beijo na testa e perguntei em seguida:
-Está tudo bem, mozinho?
-Sim... Você é maravilhoso...
-Qualquer incômodo, você me avisa.
-Tá bem.
            O abracei forte, compartilhando as batidas dos nossos corações. Nossas peles respondiam na mesma intensidade, cúmplices, em busca do prazer mútuo.
            Fizemos amor, como eu nunca havia feito na vida. Aquela noite eu me realizei, descobrindo algo que até então eu não conhecia.
            Com sua cabeça apoiada ao meu peito e o lençol nos cobrindo até a cintura ele disse:
-Obrigado!
-Pelo quê?
-Por me proporcionar um momento tão mágico como esse...
-Não precisa agradecer...
            Dei-lhe um beijo na testa e o abracei forte. Assim adormecemos. É impossível descrever a sensação que se sente ao fazer amor com quem a gente ama. Sozinhos naquele quarto compartilhamos sonhos, carinho, dividimos prazeres, nos tornamos um só corpo, uma só alma.  
            No outro dia acordamos por volta das nove da manhã. O cheiro de café já se espalhara pela casa, despertando em nosso estômago uma euforia quase que incontrolável.
            Acariciando meu peitoral o Cauê disse:
-Amorzinho... Dormiu bem?
-Bom dia, mô! Dormi nas nuvens, e você?
-Ainda estou sonhando... Não quero acordar tão cedo...
-Acho melhor a gente levantar...
-Também acho. Vamos tomar banho?
-Claro!
            Levantamo-nos da cama, ambos nus. De mãos dadas caminhamos até seu banheiro. Liguei o chuveiro, fechei a porta e antes de entrar na água o Cauê exclamou:
-Está fria!... Deixa mais quente, amor?
-Calmai... Pronto, já começou a esquentar.
-Tom...
-Oi?
-Como é a água?
-A água?
-É.
-Bem... A água não tem cor, é...
-Não tem cor?
-Não.
-Mas eu sempre ouvi dizer que o mar é azul...
-Sim, mas não porque a cor da água seja azul.
-Então por que é?
-Bem... não sei te explicar com detalhes, mas sei que tem a ver com profundidade, terreno, raios solares...
-Ah!... E qual é o tamanho do mar?
-Vixi... É muito grande.
-Maior que a China?
-Maior que todos os países juntos.
-Nossa! Um dia você me leva pra conhecer?
-Claro... Você nunca foi à praia?
-Não.
-Então eu te levo pra conhecer.
-Você promete?

-Prometo.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 8



            Eu não via a hora de apresentar a minha “razão de viver” aos meus amigos. Ao entrar em minha vida, o Cauê transformou-a completamente, levando-me ao paraíso sem sair do lugar, fazendo-me viver um sonho acordado.
            Cheguei à estação Armênia do metrô e fiquei esperando pelos dois. Olhei no relógio e já eram oito horas da noite, sendo que havíamos marcado para nos encontrar as oito e dez. Cinco minutos depois a Soraia chegou toda elegante, com um perfume que deixava rastro por onde passava, cheia de pose em cima de um salto agulha.
-Oi Tom!
-Boa noite! Você está linda...
            Tocando em sua mão, girei-a para ver em ângulo de 360 graus.
-Eu?
-Sim...
            Realmente, a Soraia estava muito bonita. Os olhos pintados, realçados com uma sobra brilhante moderadamente, e nos lábios um gloss, deixando-as com um ar sexy. Ao notar uma tristeza em seu olhar, não hesitei em perguntar:
-Miguxa... Você está triste?
-Ai Tom... Estou um pouco mal...
-Por quê?
-Hoje quando fui me arrumar pra vim, nenhuma roupa me servia...
-Sério?
-É... Tive que ir correndo até o shopping comprar algo pra vestir...
-Nossa!
-Fiquei muito mal.
-Eu imagino.
-Bem... Mas graças a você minha mãe tem me dado mais atenção...
-Ah é?
-Sim... Ela me incentivou a fazer um regime, ou melhor, uma reeducação alimentar através de uma nutricionista...
-Com isso eu concordo, mas ainda acho que você deveria consultar um médico.
-Você acha?
-Acho.
-É... Vou pensar...
-E, por favor, pare de se entupir com aqueles remédios que não adiantam nada.
-Tentarei.
            Com o auxílio de um funcionário o Cauê desembarcou. Guiado também com sua vareta eles caminhavam em direção às catracas quando os abordamos.
            Estando os três juntos, seguimos para a baladinha onde eu costumava frequentar. Descíamos à escada rolante quando a Soraia perguntou:
-Cauê... Como você faz pra andar sozinho por São Paulo que é tão grande?
-Eu saio com o Emílio quando vou para lugares que não conheço...
-E quando não está com o Emílio?
-Quando não estou com o Emílio eu uso a vareta para me guiar...
-Mas não é ruim andar pelo metrô? Você não tem medo de cair nos buracos das calçadas?
-Ah... Os funcionários do metrô nos ajudam a se locomover nas estações... Além de ter sinalização no piso para guiar pessoas com problemas como o meu...
            Em 2005 a Secretaria Municipal das Subprefeituras de São Paulo iniciou o Programa Passeio Livre, onde através do decreto 45.904/05 estabeleceu normas de acessibilidade, dimensões e materiais adequados para implantação de calçadas e uma forma de parceria com a iniciativa privada para reconstruir calçadas.
            Para que a padronização e acessibilidade dos passeios atinjam toda a cidade, as calçadas dos imóveis particulares também foram reformadas, sendo de responsabilidade do proprietário do imóvel a conservação, manutenção e reforma, independente se residencial ou comercial. As calçadas que estiverem irregulares ou mal conservadas são passíveis de multa.
            Em 2007 o total de calçadas reformadas na cidade já passava dos 500.000 m², sendo revestidas com pavimento de blocos Inter travados, nas cores vermelha, cinza e cinza escuro, com extremidades rebaixadas para facilitar o trânsito de cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida, onde idosos, gestantes, deficientes e crianças possam transitar sem preocupação e riscos de acidentes. Há também pavimentos feitos de concreto moldado, placas pré-moldadas e ladrilho hidráulico. Os motivos que levaram a prefeitura a escolher materiais como esses foram a estética, a durabilidade e flexibilidade de remoção e recolocação, sendo econômico e ecológico, por permitir que a água penetre no solo entre os blocos.
            Ao chegarmos avistei o Kico parado à porta, vestindo uma calça preta e uma camiseta branca. Usando um boné com a aba virada para trás e os olhos pintados, nem notou nossa presença.
            Calado, aproximei-me dele e puxei seu cinto por trás, dando-lhe um susto.
-Tom! Que sustooooooo...
-Hahaha... Deixa eu te apresentar... Esse é o Cauê...
-Prazer, Cauê!
-Prazer!
-E essa é nossa amiga Soraia...
-Nossa, girl! Como você é bonita...
            Tímida, a Soraia agradeceu após cumprimentá-lo com um beijo no rosto.
-Bonita?... Obrigada!
            Nem precisou que ela dissesse para notar sua felicidade. Claro que na frente do Kico eu não falaria nada, mas depois confirmaria sem sombra de dúvidas minhas suspeitas, com discrição. Caminhando em direção à porta perguntei ao Kico:
-Você não vai entrar?
-Estou esperando o Dinho...
-A gente se vê lá dentro então.
-Certo.
            Tornei-me apoio da Soraia e do Cauê, pois ambos seguravam em meu braço, um de cada lado, estando eu ao meio, recheando o sanduiche. Procurei um canto onde pudéssemos ficar sem muitas pessoas em volta. Ao lado esquerdo encontramos uma mesa, e logo depois que nos instalamos o Kico e o Dinho nos encontraram:
-Nossa... Por que vocês estão se escondendo?
-Quem disse que estamos nos escondendo?
-Então pra que ficar aqui no canto?
-Não posso deixar o Cauê no meio do povo, ele tem deficiência visual...
-Ah!... Eu vou buscar uma cerveja e já volto...
-Beleza.
            Enquanto os dois foram ao bar, perguntei à Soraia:
-Sê... Por que você está toda solta desse jeito?
-Eu?... Como assim?
-Sim... Depois que o Kico falou que você estava bonita...
-Ai amigo... Nunca ninguém me fez um elogio desse antes...
-Sério?
-É...
            Segurando duas latas de cerveja na mão o Kico voltou, oferecendo uma delas à Soraia. Eu não era bobo, e percebi logo um clima rolando entre os dois. Por volta das nove horas toda a turma já havia chego, concentrando-nos em volta da mesa e conversando sobre diversas coisas.
            Dando um gole em sua caipirinha a Linoka perguntou:
-Tom... Quanto tempo faz que você e seu amorzinho estão namorando?
            Após um suspiro o Cauê respondeu por mim:
-Não estamos namorando, apenas ficando.
-E o que falta pra vocês namorarem?
-O Tom me pedir em namoro.
            Nesse momento todos começaram a gritar:
-Pede... Pede... Pede...
            Até a banda que tocava no palco parou e aderiu ao coro. Morri de vergonha, pois nunca havia passado por tal situação. Pedindo silêncio, toquei na mão do meu amorzinho e com uma certa timidez tentei dizer:
-Bem... Mozinho... Você aceita namorar comigo?
-Aceito!
            Todos começaram gritar:
-Aeeeeeeeeeeeeeeeee...
            Demos um beijo, e logo em seguida a banda retomou às músicas. Minhas mãos tremiam, tamanha timidez. Tirando o cigarro da boca o Kico puxou-me de lado falando:
-Tom... Será que tem jeito de você tentar um esquema com sua amiga?
-Você está falando da Soraia?
-É.
-Pra você?
-É...
-Bem... Eu posso falar com ela...
-Brigadu, migow!
            Voltei à mesa e disse no ouvido da Soraia:
-Sô... Eu acho que o Kico ficou a fim de você.
-De mim?
-É... O que você acha?
-Mas Tom, eu sou gorda...
-Não foi isso que ele disse para você...
-É verdade... Ai meu Deus...
-O que foi?
-Eu não sei o que eu faço... Ninguém nunca se interessou por mim...
-Então decide, eu posso dizer a ele que você topa conversar?
-Pode.
            Fiz apenas um sinal com a cabeça para ele que se aproximou e sentou-se ao nosso lado. Deixei-os conversando e fiquei dando atenção ao Cauê, e ao virar-me novamente avistei os dois se beijando, abraçados, trocando carinhos. Fiquei super feliz pelos dois, pois ambos eram pessoas que eu gostava, e logo contei a novidade ao Cauê que vibrou com a notícia.
-Mozinho... A Soraia e o Kico estão se beijando...
-Sério?
-É...
-Me beija também?
            Pegando o embalo dos dois, eu e o Cauê iniciamos um beijo também. Passamos uma noite muito agradável, principalmente a Soraia, que aproveitou bastante com o Kico. Fiquei muito feliz por ela, pois o meu amigo era um cara muito bacana, e eu não digo isso pelo fato dele ser meu amigo, mas sim por reconhecer o valor real das pessoas.
            Deixamos à balada já passava dás onze horas da noite. Por insistência da Soraia e do Cauê, acabamos voltando de táxi, e no estado em que a Soraia ficou após beber meio copo de batida, não seria seguro se ela voltasse de metrô.


sábado, 23 de julho de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 7




Acordei com muita preguiça naquela manhã. Levantei, escovei os dentes, tomei banho e desci para tomar café, vestindo apenas um roupão. A mesa já estava pronta e minha mãe retirava uma torta do micro-ondas quando perguntei:
-O que é isso, mãe?
-Torta de maçã.
-Hum!
            Nesse momento o telefone tocou. Segui em direção à sala dizendo:
-Deixa que eu atendo...
            Ao pegar o telefone, chamei por duas vezes, mas ninguém respondeu, desligando logo em seguida.
-Alô?... Alô?
            Voltei à cozinha e sentei-me à mesa novamente. Pegando a jarra de suco na geladeira minha mãe perguntou:
-Quem era?
-Não sei... Não falou nada.
            Assustei-me com o barulho da jarra se quebrando ao chão.
-Nossa!... Está tudo bem?
-Ai, droga...
-O que houve?
-Acho que me distrai...
-Mãe... Fale a verdade, não foi só isso...
            Percebi que minha mãe havia ficado muito nervosa quando disse que ninguém havia respondido ao telefone.
-Tom... Vá se vestir para sairmos, se não você vai se atrasar.
-Mãe... Era ele, não é?
-Para...
-Fale? Era ele?
-Não sei... Acho que sim...
-Ele tem te ligado?
-Tom...
-Ele tem te ligado?
-Sim.
-E o que ele diz?
-Filho...
-Fale, mãe?
-Às vezes ele faz ameaças...
-Que tipo de ameaças?
-Ele... Diz que vai nos tirar tudo.
-Não acredite no que ele disser... Você é forte, mãe... Mesmo que ele queira, metade de tudo é nosso por direito legal...
            A intenção dele era fazer uma pressão psicológica, e claro que não era somente aquilo que ele estava ameaçando, pois eu tinha certeza que muito mais delitos havia ali, porém, minha mãe preferiu omitir, por vergonha talvez, mas independente do motivo eu iria descobrir.
-Mãe... Peça para que mudem o número do telefone...
-Não acho que seja necessário...
-Por favor, mãe.
-Tudo bem... Quando você voltar da faculdade, pode fazer isso por mim?
-Claro!
            Não toquei mais no assunto durante o caminho até a faculdade. Após deixar-me em frente ao campus ela seguiu para a lanchonete para trabalhar. Entrei na sala de aula e notei um certo tumulto, arrastando as carteiras para os lados e conversas em altas vozes.
            O professor começou a dividir a sala ao meio e iniciou um debate sobre cotas em universidades. Eu odiava quando ele promovia seus debates daquela forma, pois eu ou um dos “excluídos” sempre éramos alvos de alguma piada, e claro, naquele dia não seria diferente.
-Galera... Silêncio... Eu quero que vocês me digam a opinião de vocês com relação às cotas em universidades. Isso gera ou não preconceito? Dividam-se em dois grupos com vinte alunos cada um.
-A gente escolhe em qual grupo quer ficar?
-Pode escolher... Um grupo defenderá as cotas e o outro se manifestar contra...
-E qual será a favor?
-Isso eu vou escolher...
            Após um breve sorteio ele definiu que o grupo da esquerda seria a favor das cotas.
-Esse grupo aqui será contra, e esse a favor.
            Com uma caneta à mão, o Roberto, que ficou no grupo a favor das cotas iniciou dizendo:
-Essa questão é muito complicada, professor... Pode ser vista como preconceito se for vista apenas a questão das cotas isolada do propósito...
            De uma forma arrogante, a Amanda, que para variar estava no grupo que debatia contra, colocou sua opinião diante a sala:
-Eu acho que pobre já tem uma vida muito sofrida, não deveria fazer faculdade.
            Apoiando-se em sua mesa o professor questionou:
-Ué... Por quê?
-Não que eu seja preconceituosa, mas acho que existem coisas nessa vida que são feitas para determinados tipos de pessoas, e curso superior não foi criado para a classe proletariada.
            Até admiro a coragem que ela teve em expor sua radical opinião, porém, eu não ia deixar passar a oportunidade de mostrar o quanto sua vida era vazia. Pedi a palavra ao professor e retruquei sua afirmação:
-Mas depende da pobreza da qual você está se referindo, pois existem aquelas pessoas que são tão pobres, tão pobres, que só o que elas têm é dinheiro...
            Claro que ela entendeu que a indireta era pra ela, e decorrente a isso não respondeu mais nada, dando ao professor a palavra para prosseguir com o debate. Assim como a Amanda, toda a sala entendeu o recado, como a carapuça do saci.
            No horário do intervalo descemos eu, o Cauê e a Soraia para a praça de alimentação, pois a fome havia batido e um pequeno lanche naquele momento cairia muito bem.
            Sentamos à mesa, o Cauê comentou:
-Você foi demais, Tom!
-Por quê?
-Falou tão bonito... Me senti orgulhoso de você...
            Levantando-se da mesa a Soraia disse:
-Nossa, Tom!... Eu queria ter essa coragem que você tem...
-Parem com isso.
-Estou indo até a cantina. Alguém quer alguma coisa de lá?
-Eu quero um achocolatado, lindinha.
-E você, Cauê?
-Pode me trazer um pão de queijo?
-Claro! Volto logo.
            Após um curto suspiro o Cauê chamou-me atenção para a entrega do trabalho:
-Tom... A semana que vem temos que entregar aquele trabalho das duplas.
-É verdade! Eu havia esquecido...
-Podemos fazer no próximo sábado em minha casa, se vocês quiserem...
-Por mim tudo bem...
-Será que a Soraia irá topar?
-O que tem eu?
-Eu estava sugerindo ao Tom em fazer aquele trabalho das duplas em minha casa no próximo sábado. O que você acha?
-Eu adorei a ideia!
-Então fechou. Faremos o trabalho na minha casa.
-Ótimo! O que eu levo?
-Você já leve as pesquisas prontas da internet e o Tom leva as de revista... Em casa eu já tenho o código...
            Depois de tomarmos nosso lanche, voltamos à sala e continuamos assistindo à aula e participando do debate, porém, sem piadas ou picuinhas, pois todos já haviam entendido que nenhuma gracinha seria tolerada calado.
            No domingo minha mãe não foi trabalhar, pois não seria dia de folga dos empregados, sendo assim ela optou em descansar o final de semana em casa. Eu sempre a incentivei em não trabalhar aos finais de semana, pois haviam os empregados que cuidavam da lanchonete sem que minha mãe precisasse supervisionar, porém, sua mania de se sentir inútil estando em casa sem fazer nada lhe causava certo incomodo.
            Acordei por volta das oito horas da manhã, seguindo direto para o banho. O dia lá fora estava agradável, sol ameno e ventando moderadamente. Meus olhos ainda ardiam de sono, e ao lavar o rosto acabei molhando o cabelo, algo que eu não queria que acontecesse. Após juntar o material do trabalho e passar o perfume, desci a escada na ponta dos pés.
            Sai de casa rápido, nem tomei café para não ter que cruzar com minha mãe, pois acabaria enchendo-me de perguntas e eu não estava a fim de interrogatórios naquele dia.
            Caminhando pela rua eu ia pensando na montagem do trabalho, não vendo a hora de chegar lá e por em prática minhas ideias. Não que eu me considerasse o melhor, mas sempre defendi minhas ideias em tudo que fazia, mesmo que não fossem aproveitadas ou ouvidas, mas eu fazia questão de expor.
            Desci do metrô e peguei um ônibus até a casa do Cauê, pois eu não estava a fim de caminhar por dez minutos e chegar em sua casa suando, fedendo. Minha mochila estava pesada, mas não ao ponto de me incomodar, pelo contrário, o que mais me deixou sem graça foram os olhares das pessoas de espanto, tudo pelo meu jeito diferente de se vestir.
            Ao chegar ao portão de sua casa, toquei a campainha e aguardei alguém aparecer. Sua rua estava cheia de crianças brincando. Na casa ao lado, quatro garotas pulavam corda no quintal, e ao me ver parado na calçada uma delas falou:
-A Irene saiu...
            Após um suspiro profundo eu respondi:
-Obrigado!...
            Olhando-me torto, outra garota perguntou:
-Você é menino ou menina?
            Antes que eu respondesse uma delas disse:
-Ele é Emo, sua burra.
-Credo!... Ele é muito estranho...

"Essa semana uma girl (menina) perguntou se eu era roqueira, eu disse que sou Emo, e ela perguntou se eu era o capeta. Que ridículo!" (Prizinha, 15 anos, Salvador)

            Sinceramente eu nunca entendi essa “rejeição” com relação às pessoas que pertencem a tribo Emocore. Não pelo motivo de pertencer ao grupo, mas a falta de motivos ruins para que se veja os Emos de uma forma pejorativa. Depois de muito questionar e não encontrar respostas, cheguei a conclusão de que a felicidade alheia incomoda. A humanidade vem se tornando cada vez mais violenta, e os motivos são os mais estúpidos que se possa existir. Hoje em dia mata-se por um bilhete de ônibus, um relógio de pulso, ciúme do namorado, ou simplesmente por não ir com a cara do outro e vários outros motivos que se não justificam a violência.
            Espiando pela janela a Soraia exclamou:
-É o Tom!
            Dirigindo-se até o portão o Cauê caminhou como se fosse uma pessoa comum, sem precisar do auxílio do Emílio ou de sua vareta. Exibindo um leve sorriso ele disse:
-Que bom que você chegou!
-Por quê?
-Eu já estava com saudade...
-Que lindoooooo!
-Entre, amor!
            Ao entrar, duas crianças apoiaram-se ao portão e perguntaram:
-Cauê... Quem é esse menino estranho?
            Correndo, uma mulher aproximou-se dele, pegou pelo seu braço e falou:
-Eu já não te falei pra você não chegar perto... Isso não é coisa de Deus...
            Aquilo me deixou muito mal. Sem nada dizer, entramos pela porta da sala, e uma vontade enorme de chorar sem que eu pudesse controlar. Dando-me um abraço a Soraia disse:
-Puxa, Tom... Não fique assim... Que gente perversa!
-Tom... Não chore, por favor... Essa gente é malvada assim mesmo, não ligue...
-Tudo bem... Eu já deveria estar acostumado com isso.
-Jamais volte a dizer isso...
-Mas é verdade, Cauê.
-Você não deve aguentar o preconceito calado... Não foi isso que você me ensinou?
-Sim...
            Dando-me um abraço forte ele questionou sussurrando ao meu ouvido:
-Você confia em mim?
-Confio!
            Seguimos para a cozinha, juntamos todo o material e nos sentamos às cadeiras de madeira trabalhada. O silêncio se fez presente. Próximo à geladeira havia um relógio de parede em formato de gato, onde o tic-tac produzido pelo pêndulo tornou-se o único som por alguns instantes, até que o Cauê levantou-se da cadeira perguntando:
-Alguém quer suco?
            Colocando seus óculos a Soraia perguntou:
-Suco de quê?
-De maracujá.
-Eu quero!
-Foi minha mãe quem fez... Ela também já deixou almoço pronto para nós...
-Que delícia!
-É... Além de um bolo de laranja.
-Ai... Hoje vou sair daqui mais gorda do que já estou.
            Sua casa era simples, mas bem montada. Os azulejos da cozinha continham cerejas desenhadas, combinando com a enorme toalha que recobria sua mesa. De frente para a pia havia uma janela com vista para o quintal, por onde entrava uma deliciosa brisa fresca.
            Folheando as impressões que a Soraia havia levado, questionei:
-Soraia... Isso aqui é o texto bruto extraído da internet ou você resumiu?
-Não... Fiz uma resenha...
-Ah tá!
            Passamos a manhã inteira discutindo, resumindo e montando o trabalho. Não que o tema fosse difícil de ser tratado, porém, não poderíamos deixar margens ou aberturas para que nossas opiniões fossem contestadas, pois o que faz um bom advogado é seu poder de argumentação convincente.
            Antes mesmo de almoçarmos, a Soraia já havia comido seis fatias de bolo. Eu apenas observei calado, achando um exagero, mas não consegui me segurar quando a vi pegando o sétimo.
-Soraia... Você não acha que está comendo demais?
-Ai gente... Desculpem, mas é que está tão gostoso...
-Não que eu esteja me incomodando com o quanto você come, mas estou preocupado com sua saúde...
-Tom... Sinto vontade de comer sem ter fome, não acho que isso seja normal...
-Por que você não faz uma dieta?
-Eu vivo fazendo, mas nunca consigo emagrecer...
            Os sintomas mais comuns do transtorno do comer compulsivo são caracterizados por comer mesmo sem ter fome, dietas e uso de medicamentos contínuos para perca de peso, comer sozinho por sentir-se envergonhado da quantidade de comida ingerida, alteração frequente no peso, ingestão exagerada de alimentos, assaltar a geladeira durante as madrugadas.
            O que irá caracterizar se a pessoa possui o transtorno é a repetição de pelo menos dois episódios por semana conforme citados. Durante a ocorrência desses episódios, no mínimo três características devem estar presentes, tal como sentir-se culpado ou envergonhado após ter comido em grande quantidade, comer sozinho por sentir-se envergonhado da quantidade de comida ingerida, ingerir grandes quantidades de comida mesmo estando sem fome, assaltar a geladeira nas madrugadas, comer até se sentir desconfortável fisicamente, ingerir alimentos muito mais rápido que o normal.
-Alguém tira esse bolo da minha frente, por favor?
-Pegando a bandeja o Cauê falou:
-Deixa que eu tiro...
            Enquanto o Cauê guardava o que havia restado do bolo na geladeira a Soraia perguntou-me enquanto folheava um livro:
-Tom...
-Hum?
-O Cauê disse que você e ele...
-Nós o quê?
-Estão...
-Estamos o quê?
-Ficando?
            Tentando desculpar-se o Cauê disse:
-Foi sem querer, Tom... Escapou... Por favor, não fique bravo?
-Não há problema... Nós estamos ficando sim.
-Que gracinha!... Mas na verdade eu já sabia.
-Sabia?
-Claro... Naquele dia vocês se chamando de amor na frente de todos na coordenação...
-Nossa!... Eu nem percebi...
-Nem eu, Tom!... Saiu tão naturalmente...
            Dando um gole em seu suco a Soraia perguntou:
-Gente... Vocês viram aquele congresso que vai ter em Porto Alegre?
            Mordendo sua fatia de bolo o Cauê quis saber:
-Que congresso?
-Vai haver um congresso em julho lá em Porto Alegre, com palestras de profissionais da área judiciária e valerá como horas complementares.
-E qualquer um poderá participar?
-Não... Acho que tem duas vagas somente.
-Por sala?
-Não, é por universidade. Gente, vocês não viram o cartaz no mural da sala?
-Eu não reparei...
            Descontraído o Cauê falou:
-Eu também não vi.
            Todos rimos. Seguido de um breve suspiro, comentei:
-Eu tô precisando é de uma balada...
            Amarrando seu cabelo a Soraia disse:
-Se eu disser que nunca fui em uma balada, vocês acreditam?
-Eu acredito, pois também nunca fui.
-Sério que vocês dois nunca foram em uma balada?
-Qual é o problema?
-Calma, Soraia...
-Desculpe.
-Não tem problema... É que... Ai, eu sofro muito.
            Sem entender o Cauê perguntou:
-Com o que você sofre, Sô?
-Eu tenho medo de passar vergonha...
-Vergonha?
-É...
            Curioso, quis saber:
-O que aconteceu, miguxa?
-Ai Tom... As pessoas vivem me chamando de gorda, riem de mim... Uma vez eu fiquei a fim de um garoto e sofri muito, pois ele não me quis e disse pra todo mundo da escola que eu era muito gorda e feia.
-E o que você fez?
-Chorei.
-Você é uma burra...
-Ai, Tom!
-Mas é verdade... Você deveria se empenhar e mudar o jogo...
-Como?
-Mostrar a ele o que perdeu...
-Continuo sem entender.
-Faça um esforço, emagreça, e quando você estiver uma girl magérrima, passe por ele e esnobe...
-Será que eu consigo?
-Consegue sim...
            Ansioso o Cauê disse:
-Prometa pra gente então que você vai se inscrever no concurso de Miss?
-Ai gente, não exagere...
-O Cauê tem razão, Sô...
-Mas meninos... Eu não sei nem como faz pra participar disso... Além do mais, não tenho corpo nem beleza para...
-Para com isso. Você é linda, e quando emagrecer vai calar a boca daquela galera que te esnoba e te ridiculariza...
-Não sei...
-Promete que vai pensar?
-Prometo...
-Tive uma ideia!
-Qual, amor?
-Vou levar vocês para conhecer meus amigos...
-Sério, mor?
-Sim... E vou levá-los para conhecer uma balada.
-Quando?
-Pode ser hoje à noite...
-Eu topo, mô!... Mas você vai cuidar de mim, né?
-Claro...
-Bem... Então eu também topo, Tom.
-Você vai ver, Sô... Lá ninguém vai te olhar torto só porque você não pertence ao grupo de sarados...
-Espero que ninguém ria de mim...
-Isso não acontecerá... Bem... Vamos voltar a se concentrar no trabalho...
            Naquele dia cheguei em casa já eram quase quatro horas da tarde. Antes de ir tomar banho, entrei na internet para ver se a galera estava on-line, para assim avisá-los que iria levar duas pessoas comigo para conhecê-los.
            Sentado à cadeira, sem camisa, abria o navegador quando minha mãe entrou no quarto toda feliz dizendo:
-Tom... Sua tia Sandra ligou...
-E?...
-E está grávida.
-Sério?
-Sim... Finalmente ela conseguiu...
            A tia Sandra era uma das sete irmãs da minha mãe. Sendo dois anos mais nova, nunca conseguiu engravidar, e há três anos estava fazendo tratamento junto com seu marido para que o sonho de ser mãe se realizasse.
-Que notícia ótima, mãe!
-Amanhã nós iremos até lá visitá-la...
-Claro!
-Você... Vai sair?
-Sim...
-E vai passar à noite fora?
-Não pretendo... Irei levar o Cauê e a Soraia na balada. Acredita que eles nunca foram?
-Por quê?
-A Soraia disse que não foi por vergonha.
-Vergonha de quê?
-Por ser gorda.
-Coitada...
-É... Mas eu já disse pra ela que a minha turma não irá ridicularizá-la por conta disso.
-Bem... Pelo visto você não irá jantar em casa...
-Não... Só vou comer algo rápido antes de sair.
-Eu fiz pão de queijo hoje à tarde...
-Hummmmm... Adoroooooo!
            Encostando a porta ela disse:
-Eu vou ver um pouco de TV na sala.
-Tá bom.
            Da turma de amigos, apenas o Kico estava on-line. Ao conectar, fui logo chamando para conversar:

/// Srtº Tom \\\  diz: oie migow

----KiCo----  diz: oi fofinhu

/// Srtº Tom \\\  diz: td bein?

----KiCo----  diz: xim e vuxe?

/// Srtº Tom \\\  diz: to tb... vcs vaum lah hj?

----KiCo----  diz: num sei...

----KiCo----  diz: hj num to mt bein naum

/// Srtº Tom \\\  diz: o q vc tem?

----KiCo----  diz: to desanimadu

/// Srtº Tom \\\  diz: ah... para cum issu... e o namoru?

----KiCo----  diz: ki namoru?

/// Srtº Tom \\\  diz: vc e a debi num tava ficandu?

----KiCo----  diz: ixi... acabamu faix tempow...

/// Srtº Tom \\\  diz: q pena

----KiCo----  diz: bein... axu ki vo cum vc entaum

----KiCo----  diz: kem vai cum vuxe?

/// Srtº Tom \\\  diz: eu vo com doix amigu da facu

/// Srtº Tom \\\  diz: ker dize... uma miga e meu ficanti...

----KiCo----  diz: fexaduuuuu... a genti se encontra lah entaum

/// Srtº Tom \\\  diz: xertuuuuu

----KiCo----  diz: eu emo vuxe

/// Srtº Tom \\\  diz: bju

            Após desconectar fui tomar um banho. A galera costumava ir todo sábado à balada no bairro do Bom Retiro, aqui em São Paulo. Lá tem banda ao vivo, toca as músicas que a gente curte e ninguém nos importuna por sermos o que somos.