segunda-feira, 18 de abril de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPÍTULO 1




CAPÍTULO 1: O TROTE

                        Achar que a beleza das coisas está só onde os olhos podem enxergar é pura ignorância. Existem pessoas que possuem o incrível poder de surgir e mudar completamente nossas vidas, e sentir isso na pele como eu senti, foi a melhor coisa que já me aconteceu.
                      Cresci em uma família típica de classe média, filho único, e embora nunca tenha faltado-me nada material, jamais recebi carinho de pai, apenas o desprezo. Por diversas vezes eu chorava sozinho, tentando entender o motivo de todo aquele descaso, e pedindo a Deus um novo sentido para minha vida.  
                        Foi em uma manhã de fevereiro que tudo começou. O tempo la fora estava fechado. Acordei cedo para ir à faculdade, seria meu primeiro dia de aula, o início de um novo ciclo em minha vida. O relógio da sala marcava 06h32 da manhã. Olhei pela janela do meu quarto e o tempo ameaçava chover, cheiro de grama molhada.
                        Vestia uma jaqueta preta quando minha mãe entrou em meu quarto dizendo:
-Rustom...
-Oi, mãe!
-Bom dia!... Deixei a chave do carro sobre a mesinha do telefone.
-Ah sim, obrigado!
-Pegou o iogurte que eu guardei para você na geladeira?
                        Arrumando meu cabelo em frente ao espelho eu disse:
-Mãe, eu não sou mais criança pra você ficar me tratando assim...
-Pra mim você será sempre meu bebê.
-Ta bom... Vou indo...
-Rustom...
-Oi?
-Por favor, não arrume confusão dessa vez...
-Humpft... Eu não procuro confusão, mãe... Apenas me defendo.
                        Depois de me dar um abraço ela falou:
-Boa aula!
-Obrigado!
                        Sempre que eu precisava, minha mãe emprestava-me seu carro, para que eu não sofresse no transporte caótico de São Paulo. Naquela manhã o trânsito estava bom, pois peguei o contra fluxo da Marginal. Ao chegar perto da faculdade, notei a dificuldade que seria estacionar nas ruas próximas, pois estava repleta de carros.
                        Em frente a entrada principal havia muitos veteranos aguardando os calouros, para passar o tão conhecido Trote. Passei por eles sem ser notado, subindo direto para a sala de aula. Todas as informações de localização eu já havia recebido da faculdade por e-mail, sendo assim, não precisei pesquisar naquelas listas coladas nas paredes da secretaria.
                        Ao entrar à sala, avistei a terceira carteira do canto próximo à porta, e decidi que era ali onde eu ia me sentar durante as aulas. O ambiente não era muito grande, mas estava lotado. Encostei a cabeça na parede e olhava em direção à porta, quando avistei o professor chegar.
-Bom dia, classe!
-Bom dia!
                        Colocando sua pasta sobre à mesa ele se apresentou:
-Meu nome é Ricardo, sou um dos professores do curso de Direito. Darei aula para a turma de vocês durante esse semestre.
                        O professor Ricardo parecia ser bem tranquilo. Seu jeito calmo de falar, misturado a espontaneidade, mostrava ter um espírito jovem, apesar de seus cabelos grisalhos. Após uma breve apresentação, a aula começou pra valer, com matéria na lousa e até marcando datas para entrega de trabalhos.
                        Pouco antes do intervalo, percebi que os veteranos estavam sondando nossa sala para pegar os novatos e pôr em prática suas maldades. Antes que eles me surpreendessem, deixei a sala como se fosse ao banheiro, esquivando-me pelos cantos para não ser visto. Desci pela escada rolante onde não havia ninguém, em seguida caminhei até a lanchonete e comprei um sanduíche que eles chamavam de “natural”.
                        Eu estava com muita fome, e não me faria bem ingerir frituras ou coisas muito pesadas àquela hora da manhã. Enquanto comia, caminhava pelo enorme jardim entre os prédios do campus. Sentei-me próximo à uma árvore para admirar a paisagem, quando ouvi um latido de cachorro. No início estranhei, pois não é comum ver um animal circulando locais fechados onde transitam muitas pessoas. Tudo bem que poderia ser do caseiro ou apoio de algum dos seguranças, e mesmo assim não deveria ficar exposto próximo aos alunos.
                        Pela altura do latido ele não parecia estar muito longe. Deixando a curiosidade falar mais alto, comecei a procurar pelo animal em meio ao arvoredo. O barulho das folhas secas sendo pisadas o fizeram latir ainda mais, e quando o encontrei, percebi que agonizava parecendo pedir socorro. O animal era muito bonito, bem cuidado, da raça labrador. Apontando para a entrada do prédio de Educação Física ele tentava escapar da corda que o prendia.
-O que você tem?... Calma, cachorrinho... O que tem lá dentro, hein?
                        Preocupado, caminhei em direção à porta de vidro que dava acesso à piscina. Empurrei-a lentamente para que não fizesse barulho e chamasse atenção de alguém que lá pudesse estar, além do cachorro. O ambiente era enorme, bem equipado e moderno. Haviam duas piscinas, uma delas era semi-olímpica, com bóias coloridas formando fileiras.
                        Não havia ninguém no local, apenas eu que por curiosidade caminhava pelo deck, tomando cuidado para não cair dentro de uma das piscinas, pois as luzes do ambiente estavam desligadas pela não utilização do espaço naquele momento. O silêncio logo foi quebrado pelo soar de gargalhadas que vinham do vestiário.
-Hahaha... Bem vindo!... Uhuuu...
                        Ao perceber que vinha alguém, escondi-me atrás de uma pilastra para não ser visto. Embora o local estivesse um pouco escuro, a luz que transpassava pelas portas de vidro permitiu-me ver quatro garotos caminharem em direção à piscina, e um deles dizendo:
-Aonde vocês estão me levando?
                        Enquanto o grupo gargalhava, outro respondeu:
-Agora você virou "bicho", cara... Precisa ser batizado...
                        Um dos meninos parecia não pertencer ao grupo, o que logo me fez sacar que aquilo se tratava de um “trote” de mau gosto. Como se fosse uma bola, os garotos o empurravam de um lado para o outro, enquanto ele se debatia sem entender o que acontecia.
-Por favor, parem com isso.
-Bem vindo à universidade, mano...
                        Rolar na lama, beber até não aguentar mais, pedir dinheiro nos faróis, tomar banho de óleo queimado, comemorações como essas não é o que se esperam aqueles que acabam de entrar para a faculdade. Além do desgaste de ter enfrentado o vestibular, cobranças da sociedade e dos país, na maioria das vezes são obrigados a passar por "testes" como esses, denominados Trotes e praticado por alunos veteranos.
                        Por muito tempo os novatos tiveram que aceitar vários tipos de humilhações, porém, nos últimos anos o registro de denúncias contra abusos na prática dos trotes acumularam-se, e com isso despertou reação em algumas instituições, sendo proibido a prática por algumas dentro de suas dependências. Consequentemente, várias universidades criaram punições e restrições para a prática de trotes que não fosse acolhedor, solidário.
                        Espiando por trás da pilastra, senti pena do pobre garoto. Aqueles caras perversos poderiam machucá-lo, e não demorou muito para que algo ruim acontecesse. Enquanto um pegou pelos seus braços, outros dois seguraram suas pernas e o balançaram, tomando impulso e o atirando na piscina semi-olímpica logo em seguida.
                        Enquanto caiam na gargalhada, o rapaz agonizava no interior da piscina, pedindo por socorro. O que estavam fazendo com ele ia além de um trote, mas sim uma perversidade. Próximo a mim havia um cesto de lixo feito de lata. Caminhei até ele e comecei a balançá-lo, fazendo um forte barulho para tentar assustar os moleques.
                        Confesso que minha idéia foi bem primitiva, além idiota, mas acabou dando certo, e isso é o que importa. Com medo de serem pegos por alguém, deixaram o garoto dentro da piscina e saíram correndo dizendo:
-Ih... Sujô, sujô...
-Corre, caralho... Corre...
                        Esperei que eles saíssem e fui até a piscina onde haviam jogado o rapaz. Quase sem forças ele ainda tentava nadar, batendo braços e pernas, intercalando com gritos de ajuda e tosse. Procurei algo para que ele pudesse agarrar e assim poder puxá-lo, mas não encontrei. Vendo que o garoto não aguentaria por muito tempo, tirei minha roupa e pulei na piscina apenas de cueca.
                        A água estava muito fria, chegando a doer os ossos, mesmo assim nadei em sua direção. Ao me aproximar, passei meu braço esquerdo por baixo de sua axila esquerda e nadei em direção à margem, com suas costas apoiada sobre meu peito.
                        Aquela piscina era enorme, deveria ter uns três metros de profundidade e se ele permanecesse por mais um tempo boiando sem ajuda, com certeza não teria resistido e certamente se afogaria.
                        Quando nos aproximamos à margem, falei:
-Segure na beirada do deck...
-Por favor, não me machuque...
-Fique calmo, eu não vou machucá-lo.
                        Tateando à borda, ele procurava onde se apoiar. Para ajudá-lo, coloquei suas mãos na beira da piscina, enquanto isso sai da água para puxá-lo. O vento frio que entrava por um dos vitrais abertos fazia-me tremer de bater os dentes.
                        Já fora da água, estendi minha mão a ele dizendo:
-Segure minha mão...
                        Esperei que ele a pegasse, mas ao invés disso o garoto estendeu a sua esperando que eu o fizesse. Percebi que ele parecia não estar bem, e isso me preocupou ainda mais. Peguei pelo seu braço e o puxei para fora da água, de uma vez só.
                        Seu corpo todo tremia muito de frio. O deitei ao lado da piscina, enquanto isso vesti minha roupa para proteger-me do vento gelado. Seu corpo era franzino, aparência frágil. Com medo que algo pior acontecesse com ele, o peguei no colo e o levei para a sauna que ficava ao lado dos vestiários, pois achei que o garoto poderia entrar em estado de hipotermia.
                        Tranquei à porta, para caso os garotos voltassem, não nos pegassem novamente. O tempo inteiro ele chamava pelo nome de alguém, talvez seu pai, pois o nome era masculino. Liguei o aquecedor e tirei suas roupas, o deixando só de cueca. Após torce-las, estendi na bancada para que pudessem secar.
                        Permaneci abraçado ao seu corpo por quase uma hora, até ter certeza de que a sua temperatura corporal já havia se estabilizado. Acabamos cochilando um pouco, mas logo acordei quando ele começou a se mexer.
                        O ajudando a levantar, perguntei:
-Você está bem?
-Humpft... Estou... Cadê o Emílio?
-Quem é Emílio?
-Meu cachorro.
-Por acaso seria um labrador?
-Isso!
-Ah... Ele está la fora... Não se preocupe, pois ele está bem.
                        Apertando forte minha mão e demonstrando estar com muito medo ele pediu:
-Por favor, não deixe que me machuquem...
-Não se preocupe... Ninguém fará nada contra você enquanto eu estiver aqui.
-Você promete?
-Prometo... Confie em mim.
-Obrigado!
-Mas será necessário denunciar as pessoas que fizeram isso com você... Saberia reconhecê-los se os vissem entre os alunos?
                        Após um longo suspiro ele respondeu:
-Eu não posso enxergar, sou deficiente visual...
                        Tudo bem que eu percebi nele algo diferente, mas em momento nenhum eu havia reparado que fosse cego, pois seus olhos eram praticamente perfeitos. A partir daí eu entendi o por quê dele ter estendido seu braço ao invés de pegar em minha mão, o latido desesperado de seu cachorro.
                        Para que trotes violentos fossem repreendidos e proibidos literalmente, foi necessário acontecer uma tragédia, e no ano de 1999 o Brasil tomou ciência do caso do calouro Edson Hsueh da Faculdade de Medicina da USP, encontrado morto dentro da piscina da associação atlética dos alunos, um dia depois de um churrasco oferecido pelos veteranos no mesmo local.
                        Fiquei sem saber o que pensar, vendo aquele garoto na minha frente, chorando e tremendo de frio e medo. O que aconteceu com ele foi além de um trote, pode ser classificado como uma tentativa de homicídio, pois eles tinham a ciência da deficiência do garoto, e fizeram aquilo por maldade, de caso pensado, desde o local onde saberiam que não seriam vistos, até amarrando seu animal em uma árvore para não serem seguidos ou descobertos.
                        Sem jeito, falei:
-Desculpa, eu não havia notado que você não enxerga...
-Não tem problema.
-Humpft... Acho melhor irmos embora enquanto estão todos nas salas assistindo à aula.
-Eu estou com medo...
                        Tocando em sua face, falei:
-Ei... Não precisa ter medo, eu estou aqui, não deixarei ninguém te fazer mal.
-Obrigado!
                        Depois de ajudá-lo a se vestir, abrindo à porta da sauna para irmos embora, perguntei:
-Você mora em que bairro?
                        Segurando forte em meu braço ele respondeu:
-Sacomã...
-Tudo bem, então vamos buscar o seu cachorro que eu vou levar vocês pra casa.
-Nos levar?
-É... Não vou te deixar ir sozinho para que você corra o risco novamente de ser pego por algum outro marginal... Estou com o carro da minha mãe...
-Não precisa, eu me viro com o Emílio...
-Não ficarei em paz sabendo que você está correndo risco sendo que eu poderia ter evitado.
                        Após um suspiro, ele questionou:
-Desculpa, mas por que você está me ajudando?
-Porque eu também passei por muitas injustiças e preconceitos nessa vida... Agora vamos pegar seu cachorro e sair daqui logo...
-Eu estou com medo...
-Calma... Não tem ninguém por perto, devem estar todos na sala.
-Humpft... Ta bem.
                        Voltamos ao bosque e pegamos seu cachorro, em seguida fomos para o carro que estava estacionado próximo dali. Traumatizado, ele não largava meu braço. Caminhamos apressados, nos esquivando para não sermos vistos.
                        Deixamos o campus pela saída lateral e caminhamos pelas ruas que estavam vazias, pois o segundo período de aula ainda não havia se acabado.
                        Enquanto seu cachorro o guiava, perguntei:
-Para todo lugar que você vai o Emílio te acompanha?
-Sim... Ele que me livra dos obstáculos... Às vezes eu uso a vareta, mas na maioria das vezes é com o Emílio que me locomovo pela cidade.
-Podemos dizer que ele é seu melhor amigo então...
-O Emílio é praticamente meus olhos.
                        Abri a porta dianteira e o ajudei a entrar no carro. Depois de prender o cinto de segurança nele e acomodar o Emílio no banco traseiro, liguei o carro e antes de dar partida percebi que ele ainda tremia. Travei as portas, tirei o cinto de segurança e falei:
-Você ainda está com frio?
-Muito.
                        Toquei em seu peito e senti sua roupa ainda úmida. Liguei o ar quente do carro e disse a ele:
-É melhor você tirar essa camisa, se não vai ficar doente... Vou te emprestar minha blusa que está quentinha...
-Obrigado!
                        Tirei minha jaqueta, e o após tirar sua blusa, o ajudei a vesti-la, pois ele acabou se atrapalhando com uma das mangas.
-Deixa que eu te ajudo...
-Tudo bem.
-Opa... Hahaha, agora foi.
-Obrigado...
-Rustom.
-Obrigado, Rustom!
-De nada.
-Eu me chamo Cauê.
-Prazer, Cauê!
                        O Cauê não aparentava dispor de muitos recursos financeiros, mas sua aparência era bem cuidada, e deveria ter uma mãe muito cautelosa. Enquanto eu dirigia, conversávamos:
-Você mora com quem, Cauê?
-Só eu e minha mãe.
                        Nesse momento o Emílio latiu:
-Ah!... E o Emílio também... E você?
-Em casa moramos eu, minha mãe e meu pai.
-Que legal!
-É... Nem tanto assim.
-Por quê?
-Quando a gente convive com seres humanos, é difícil agradar.
-Eu posso imaginar... Você não se dá bem com eles?
-Com minha mãe sim.
-E com seu pai?
-Humpft... Não muito.
-Você deve ser muito rebelde então... Hahaha...
-Antes fosse... Bem, acho que chegamos no endereço que você me passou. Qual é o número?
-32.
-Achei!
                        Paramos em frente sua casa. O sol começava a esquentar, mas o vento frio ainda soprava. Abri a porta do carro e o ajudei a descer, auxiliando também o Emílio. Dando-me um forte abraço ele falou:
-Muito obrigado, Rustom!
-Não precisa agradecer...
-Entre um pouco, deixe eu te apresentar minha mãe...
-Gostaria muito, mas não vou poder... Minha mãe vai precisar do carro, não posso demorar.
-Humpft... Tudo bem.
-Foi um prazer conhecê-lo.
                        Voltava para o carro quando ele pediu minha atenção:
-Rustom?
-Eu.
-A gente se fala outra vez?
-Claro!
                        Entrei no carro e segui para casa. Para um primeiro dia de aula, começou um pouco agitado demais, mas se fosse muito parado também não haveria graça. Estacionei em frente ao portão, onde avistei meu primo brincando na garagem.
-Tom!
-Oi Felipe!
                        Depois de lhe dar um abraço, entrei pela porta da cozinha, onde minha mãe e a tia Márcia conversavam e tomavam chá com bolo:
-Tom!
-Oi tia, tudo bem?
-Tudo... Sua mãe estava me contando que hoje foi seu primeiro dia de aula...
-É...
-E como foi?
-Mais agitado do que eu esperava...
-Filho, cadê sua jaqueta?
-É uma longa história, depois te conto.
                        Partindo um pedaço de bolo, comentei:
-Ah... Hoje eu conheci um cachorro que faz faculdade.
-Sério?
-Sim... É um labrador de um deficiente visual...
                        Abraçando minha tia, meu primo perguntou:
-Mãe... No meu aniversário você me dá um cachorro que faz faculdade?
                        Todos rimos.
-Vou pensar no seu caso.
-Bom, vou tomar banho e dormir um pouco.
-Rustom, não vai almoçar primeiro? Já está pronto...
-Não estou com fome, mãe.
                        Subi para o meu quarto e comecei a ouvir um pouco de música. Deitado em minha cama eu olhava através da janela, com o pensamento perdido entre as nuvens que passam em meio ao céu azul que se formava. Assim adormeci.
                        Acordei com o aroma de café que vinha da cozinha. O sol já estava se pondo, e o vento gelado que entrava pela janela me fez arrepiar. Entrei no banheiro e abri o chuveiro. Esperei que a água esquentasse, enquanto isso escovava os dentes já despido.
                        Após um longo banho quente, desci até a cozinha, onde minha mãe e a tia Márcia ainda conversavam sentadas à mesa:
-Tom... Não quer um pedaço de bolo, filho?
-Outro?
-Sim, comprei agora a pouco na padaria...
-Bolo de quê?
-Mármore.
-Hum... Adoro! Cadê o Felipe?
-Está dormindo no sofá da sala... Não vá acordá-lo.
-Ah... Tudo bem...
                        Cortei duas fatias de bolo, coloquei-as em um prato e voltei ao meu quarto. Deixei tocando o CD do NX Zero bem baixinho, enquanto isso comia deitado sobre minha cama. Meu quarto era o único lugar onde eu me sentia seguro, a vontade, mesmo tendo pouca privacidade, pois meus pais entravam sem bater na maioria das vezes.
                        Antes que eu terminasse a primeira fatia o telefone tocou:
-Alô?
-Tom? É o Kico.
-Oi miguxo!
-O que você ta fazendo?
-Estou ouvindo um pouco de música e comendo um pedaço de bolo.
-Eu ainda to no trabalho... Tá um saco isso aqui.
-Por quê?
-Estou sozinho, não tem cliente...
-E você não entrou na internet?
-Sim, mas não tem ninguém online... Ai resolvi ligar pra você para conversar um pouco.
-É porque hoje começaram as aulas, ai o povo não fica mesmo.
-Ah é mesmo... E você foi pra aula?
-Sim.
-Gostou?
-Achei um pouco chato, mas minha tia disse que no começo é assim...
-Pois é, depois vai melhorando.
-Pelo menos fiz minha boa ação do dia.
-Como assim?
-Acredita que tentaram afogar um garoto na piscina da faculdade?
-Nossa! Mas conseguiram?
-Claro que não... Eu dei um jeito de impedir que matassem o garoto.
-Mas por que isso?
-Por maldade...
-Credo.
-Depois te conto como foi.
-Tudo bem.
-Domingo você vai encontrar o pessoal na Liberdade?
-Ainda não sei... Meu pai ta querendo viajar, mas se a gente não for eu te ligo pra combinarmos de ir.
-Está bem.
-Bom, vou indo agora.
-Nos falamos depois.
-Sim.
-Até.
                        O Kico era meu melhor amigo, e apesar de saber da minha sexualidade, nunca me tratou diferente do restante da turma. Nos conhecemos no tempo do colégio, e desde então não nos separamos mais, sendo a única pessoa que eu poderia confiar e compartilhar meus segredos.

                        Após desligar o telefone fui ver um pouco de TV. Eu não estava me sentindo muito bem, uma dor horrível de cabeça não me deixa fazer mais nada, e não tive outra opção a não ser voltar a dormir.


Próximo capítulo: Mudando de sala



sábado, 16 de abril de 2016

PRÓXIMA OBRA - ESTREIA DIA 18/04



                          Após um conturbado período escolar, Rustom inicia sua vida acadêmica, e logo no primeiro dia de aula já começou a se meter em confusão. Depois de presenciar um ato covarde provocado por veteranos contra um calouro, Rustom decide ajudar o garoto, a partir dai surge uma grande amizade entre eles.
                   O contraste entre um garoto Emo e um deficiente visual tornam-os cada vez mais próximos, até se descobrirem apaixonados. Juntos, Cauê e Rustom se unem para lutar contra o preconceito que ambos sofrem dos próprios colegas na faculdade.

                    Essa história traz discussões de assuntos atuais, como a violência provocada por jovens da classe média brasileira, obesidade e transtorno do comer compulsivo, intolerância contra diferenças, a definição de Emo, e também o acidente aéreo do dia 17 de julho de 2007.



PRIMEIRO CAPÍTULO: O TROTE - 18/04/2015


quarta-feira, 6 de abril de 2016

LIVRO: PROFISSÃO AMANTE - CAPÍTULO 27




| A redenção |
                                                                
            Um dia eu sonhei que havia encontrado um homem que me chamava de LINDO ao invés de GOSTOSO. Que me ligava de volta quando eu desligava o telefone, que se deitava sob as estrelas para encontrar no silêncio as batidas do meu coração, ou continuava acordado para me ver dormir.
            Naquele sonho o cara me beijava na boca para demonstrar DESEJO, e também me beijava a testa para demonstrar RESPEITO. Segurava em minha mão na frente de seus amigos, achando-me o homem mais lindo do mundo, mesmo quando eu estava doente. O cara que lembrava constantemente o quanto ele se preocupava comigo e o quanto sortudo era por estar ao meu lado.
            Sonhei com um homem que esperou por mim, aquele que virava para os amigos e falava: É ELE!
            Desse sonho eu acordei, olhei para o lado e vi o Leonardo dormindo, respirando como um anjo, foi ai que dei-me conta de que não se tratava de um sonho. Tudo aquilo que vivi era real, um conto de fada. Quantas pessoas gostariam de estar no meu lugar?
            Quase todas. Eu que tive a sorte nas mãos, a posse da felicidade, não soube dar valor, como se abrisse a porta de uma gaiola e deixasse o pássaro voar, para longe, para sempre.
            A vida é mesmo muito injusta. Tudo que o Leonardo me ensinou foi que o amor é à base da vida, que pode proporcionar alegrias e tristezas. Sei que o dinheiro compra muita coisa, só não compra sentimento, caráter, conhecimento.
            Espero que um dia a inveja seja apenas contos do passado. Espero haver um dia um mundo sem guerras, sem fome, sem violência. Acredito que a humanidade, cedo ou tarde cairá em si, porque dependemos um do outro para viver.
            Fui levado para o hospital e encaminhado diretamente para a U.T.I, onde permaneci em coma induzido por dezessete dias. Durante esse tempo, minha consciência levou-me a uma viagem, torturando-me por todas as maldades que pratiquei e contribuí.
            Todos os dias eu sentia a presença de minha mãe cuidando de mim, tocando-me. Seu cheiro pairava no quarto, causando-me uma sensação de paz e alívio tão grande que não havia palavras para explicar.
            Minha recuperação estava estabilizando-se aos poucos, quando no décimo oitavo dia ouvi uma voz de criança dizer:
-Olha! Ele está se mexendo!
            Meus olhos se abriram. Ainda entubado e um pouco tonto, pude ver o Leonardo ao meu lado esquerdo, segurando o Artur no colo e a Giovana à borda da cama. Minhas lágrimas desciam, sem que eu pudesse dizer uma só palavra.
            A enfermeira entrou no quarto, e entregando o Artur para ela, o Leonardo pediu:
-Por favor, leve eles um pouco lá fora?
-Sim, claro.
            Assim que ela saiu, ele aproximou-se de mim, tocou minha mão e falou:
-Não se entregue... Eu sei que você pode me ouvir. Procure ficar bem, você está nas mãos de ótimos profissionais. Lute, sei que você é um vencedor. Prove a si mesmo que é capaz.
            Quando o vi deixando aquele quarto, chorei desesperadamente. Todas as mágoas, ressentimentos, exteriorizavam-se naquele momento através das lágrimas que misturadas a diversos sentimentos aliviavam o peso de minha alma.
            Um mês havia se passado. Durante esse tempo permaneci sozinho naquele hospital, isolado do mundo, refletindo cercado por aquelas paredes brancas e frias.
            Sentado à cama, almoçava um creme de abóbora quando a enfermeira entrou com uma prancheta na mão questionando:
-Claus?... Posso entrar?
-Pode, claro!
-Como você está se sentindo?
-Bem...
-Que bom! Vim aqui pra te dar a notícia de que você vai receber alta.
-Hum...
-Não está feliz?
-Sim claro.
-Você tem algum parente para vim te acompanhar?
-Infelizmente não... Sou sozinho nesse mundo.
-Bem... Precisaria que alguém assinasse sua alta.
-Mas eu não posso assinar?
-Não... Mas vou ver o que pode ser feito nesse caso, tá?
-Tudo bem.
            Após meu almoço começava a me preparar, quando o doutor entrou no quarto após bater duas vezes à porta:
-Posso entrar?
-Claro, doutor!
-Vim te dar a melhor notícia do mundo.
-Qual?
-Você já está de alta.
-Obrigado, doutor.
-Claus... Você parece que não ficou feliz com a notícia...
-A situação em que estou, doutor, estar vivo já não é uma boa notícia.
-Não diga isso, rapaz. Você é muito jovem ainda, tem um futuro pela frente...
-De qualquer forma eu lhe agradeço.
-Bem, Claus... Eu te desejo boa sorte e tudo de bom nessa nova jornada.
-Muito obrigado.
            Após um abraço, ele caminhou em direção à porta e ao abri-la, virou-se para mim dizendo:
-Ah!... Esqueci de te avisar, tem visita pra você.
-Visita?
-Sim.
            Quando ele abriu a porta e o Leonardo adentrou ao quarto. Paralisei. Com o lindo sorriso que só ele sabia mostrar, perguntou:
-O paciente já está pronto para ir pra casa?
-Novinho em folha. - Respondeu o médico.
-Que bom!
            Assim que o doutor deixou o quarto, o Leonardo aproximou-se de mim e falou:
-Vim te buscar.
-Me... Me buscar?
-É... Te buscar.
-Você... Sabe o que realmente está fazendo, Leo?
-A única coisa que eu sei é que amo você.
            Abraçamo-nos. Em poucas palavras ele conseguiu mudar minha vida radicalmente, e a partir daquele momento a felicidade havia voltado pra mim.
            Depois de tudo que aconteceu, o Leonardo ainda continuava com suas atitudes nobres, se preocupando comigo. Com ele aprendi que o valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis como ele.
            A ambição da Talita acabou custando sua vida, mas o bem sempre prevalece sobre o mal, e o Leonardo conseguiu a guarda de seus filhos. Já o Emerson, entregou-se à polícia e confessou seu crime, porém, estava solto pela ausência da prova principal que era o corpo da Vera.
            Sei que nada em nossas vidas acontece por acaso, fazendo-me crer que brincar com os sentimentos dos outros pode custar uma vida.
            Tudo que fazemos terá consequências, boas ou ruins, assim como diz a lei da física, que toda ação gera uma reação. Acontecimentos se repetem, mas não seguem em círculos, voltando sempre ao mesmo ponto, girando em espirais. Cada fim é igual a um começo, só que numa dimensão diferente. A lição que tiro de todas essas experiências de vida?

A pior coisa que se pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando não se pretende fazer o mesmo.

terça-feira, 5 de abril de 2016

LIVRO: PROFISSÃO AMANTE - CAPÍTULO 26




| Uma quase verdade |
  
Coloquei minhas malas sobre a cama. Fechei o zíper da mochila, e ao colocá-la sobre a cama ouvi meu celular tocar. Caminhei até a sala para atendê-lo, e ao olhar que a chamada era de minha irmã, desanimei.
A princípio, não tinha a mínima vontade de falar com a Jucinéia, mas já que estava me ligando, era porque algo de importante tinha a me dizer.
-Clau?
-Oi.
-Tô ligando pra dizer que já separei a pulseirinha da mamãe que ocê queria.
-Ah! Tudo bem, obrigado.
-Quando você vier buscar...
-Pode mandar por correio, porque não pretendo pisar mais por essas bandas.
-Ah é? Pois então vou mandar também aquele telefone maldito que matou a mamãe.
            Nesse momento o tempo parou. Incrédulo, perguntei:
-Matou a mamãe? Do que você está falando? - Questionei sentando-me ao sofá.
-A Cidinha tava em casa quando ela passou mal, e me disse que tudo começou depois que alguém ligou pra ela.
            Cidinha era uma das vizinhas de minha mãe, e fofoqueira do jeito que era, provavelmente todo o bairro já deveria estar sabendo o que de fato havia acontecido.
-Essa história está muito estranha... - Falei tentando encontrar uma resposta.
-Claro que não está. Você matou a mamãe.
-Eu?
-Olha, Clau... Eu não sei tudo que disseram a ela, mas contaram que você estava se prostituindo em São Paulo.
-O quê?
            Dei um pulo do sofá.
-Espero mesmo que você nunca mais apareça por aqui.
-Pode... Deixar.
Desliguei o telefone indignado. Quem poderia ligar para minha mãe e inventar uma coisa daquela? Qual o propósito de tal maldade?
            Não era preciso pensar muito para chegar na principal e única suspeita: Talita. Ordinária! Realmente, ela cumpriu a ameaça que havia me feito, porém, eu não iria deixar barato. Ainda teve a coragem de ir até minha casa com uma desculpa qualquer para ter certeza de que a tragédia realmente havia acontecido, tentando me convencer com aquela desculpinha cretina.
Liguei o computador chorando de nervoso. Já que minha vida foi arruinada, ele não ficaria por cima da carne seca. Criei uma pasta na área de trabalho, reuni todas as provas que a incriminavam, como os correios eletrônicos, os vídeos e fotos forjadas por mim a mando dela.
Anexei tudo em um e-mail e encaminhei para o Leonardo, digitando em um breve texto o motivo pelo qual estava fazendo aquilo. Quanto mais eu tentava me redimir, as consequências do passava insistiam em me assombrar, tirando-me a paz. Definitivamente, toda a verdade seria revelada a quem realmente precisava saber.
            Assim que desliguei o computador, peguei tudo que havia recebido de provas físicas da Talita, além das armadas por mim. Reuni o dossiê completo, coloquei tudo dentro de uma pasta e segui pra casa do Leonardo.
Minha intenção era encontrá-lo antes que ele saísse para levar as crianças pra casa daquela fulana, e assim entregar a ele todas as provas de um passado que me envergonhava demais.
Cheguei em pouco tempo, pois o trânsito estava livre. Toquei a campainha e ninguém apareceu. Na terceira tentativa, eis que a empregada resolveu atender ao interfone:
-Pronto?
-Oi... O Leonardo está?
-O doutor saiu com as crianças... Eles foram almoçar fora.
-Será que eu posso deixar com você uma encomenda para ele?
-Quem é?
-É o Claus.
-Tudo bem, só um momento que eu já vou buscar.
-Obrigado.
            A rua estava deserta. Vez ou outra passava um carro, mas nada que tirasse a tranquilidade daquela via pacífica. De uma vez por todas a verdade seria revelada, livrando-me daquela culpa que restava e consumia meu peito todas às vezes que o Leonardo lembrava-me de seu amor verdadeiro e puro. Mesmo com a possibilidade de não receber seu perdão, em minha vida não cabia mais mentiras, isso iria satisfazer minha consciência, limpar minha alma.
            Após deixar a pasta com sua empregada, segui pra casa da Talita, furioso. Maldita foi à hora em que eu saí naquela noite. Maldita hora em que parei naquela esquina. Maldita hora que a conheci.
Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo diferente. Por culpa daquele maldito dinheiro, perdi minha mãe, minha dignidade, o amor próprio.
            Parei o carro próximo ao condomínio daquela ordinária. Quando cheguei à portaria, não precisei esperar muito para poder subir, pois havia feito amizade com o porteiro propositalmente, para utilizar em horas de necessidades como aquela.
-Eae, Carlão!
-Fala, Claus... Tudo certo?
-Beleza. A Talita está ai?
-Ela ainda não saiu.
-E o ex-marido dela... Já chegou?
-Ninguém procurou por ela hoje.
-Posso subir lá?
-Nem precisa pedir. - Falou destravando o portão.
-Valeu, cara!
-Falou.
Eu não via à hora de poder enfrentá-la, olhar em seus olhos e ver a sujeira de sua alma se exteriorizando naquela imagem de ovelha.
            Ao tocar a campainha, quase varei a parede, de tão forte que apertei o botão. Meu coração quase saia pela boca. Fui recebido pela nova empregada, que por sinal parecia uma mosca morta.
-Quero falar com sua patroa. - Disse entrando em passos largos.
-Senhor... Por favor, preciso ver se ela poderá atendê-lo...
-Ela poderá me atender sim.
            Ambos na sala, logo a diaba apareceu, com aquela cara de cínica que só ela sabia fazer.
            Saindo de seu quarto com uma bolsa à mão, questionou com a voz alta:
-Isso são horas de aparecer na minha casa?
-Eu preciso falar com você.
-Não vê que estou de saída? - Falou jogando seu cabelo escovado.
-Sinto muito, mas você vai me ouvir.
-Espero que seja algo muito importante, pois tenho que ir trabalhar.
            Caminhei até ela cuspindo fogo pelas ventas. Segurando forte em seu braço, falei firme olhando em seu olho:
-Sua vagabunda! Você matou minha mãe!
Completei com um tapa em sua cara.
-O que é isso? Você está louco? - Disse com a mão no rosto caída ao sofá.
-Pensa que sou idiota?
-Eu não sei do que você está falando... - Falou tentando levantar-se.
Joguei-a novamente.
-Foi você que ligou pra minha mãe e falou a ela barbaridades... Confesse?
Levantando-se, ela respondeu:
-Eu não falei nada demais, apenas conversamos...
Nem deixei que ela terminasse. Minha vontade naquele momento era de jogá-la daquela janela abaixo. Como pode ser tão baixa?
Possuído pelo ódio, falei:
-Eu vou acabar com a sua vida...
-Ah é? Como? - Questionou escondendo-se atrás do sofá.
-Vou contar quem é você e tudo que aprontou com o Leonardo...
-Ah é? Vai contar também que te encontrei parado numa esquina do Arouche? Que você o seduziu o tempo todo por causa do dinheiro que lhe dei?
            Nesse momento levamos um susto. Sem que percebêssemos, o Leonardo acabava de chegar, ouvindo tudo que a Talita dizia parado próximo à porta. Segurando o Artur no colo com o braço direito e de mão dada a Giovana, exclamou:
-O quê!?
Silêncio.
-Leo... Eu posso explicar. - Falei abismado.
-Cláudia... Leve as crianças para o quarto, por favor. - Disse o Leonardo colocando o Artur ao chão.
Correndo, os dois deixaram a sala. Indignado, ele falou:
-Então... Quer dizer que durante todo esse tempo, você me usou?
-Não!... - Exclamei caminhando em sua direção.
-Como não? Vai me dizer que você foi encontrá-lo naquele aeroporto morrendo de amores? - Disse a Talita ironizando.
Deixando uma lágrima escapar, o Leonardo disse:
-Vocês dois tramaram tudo... Como fui idiota!
Aproximei-me dele tentando explicar:
-Leo, por favor, a gente precisa conversar.
-Não ponha a mão em mim, Claus.
-Não faz isso, Leo... Eu te amo!
-Ama? Você tem coragem de dizer que me ama?
Destilando seu veneno, o Talita tentava colocá-lo contra mim:
-Chega, Claus! Não vê que ele já sacou tudo? Agora é tarde, a verdade veio à tona...
-Cala essa boca, Talita! - Gritei desesperado por estar perdendo meu amor.
-Calar minha boca? Por quê? Está com medo que ele descubra quem matou a Vera?
-O quê?... Vocês...
-Não, não fomos nenhum de nós. - Falei com a mão ao peito.
-O que ela quis dizer então?
-Fala pra ele, Claus... Conte quem foi então...
-Foi o Emerson, empregado do flat...
-O mesmo que você transava durantes as tardes?
            Indignado, o Leonardo levou sua mão à face e falou:
-Não posso acreditar que você chegasse tão baixo a esse ponto, Claus...
-Leo, por favor...
-Eu te amei de verdade, cara. - Falou olhando-me com o olhar mais puro que eu jamais havia visto na vida.
-Eu sei... Mas não pense que eu...
-Isso que ela falou... É verdade?
-Leo...
-É verdade, Claus? Por favor... Diga que não...
-No começo foi... Confesso que me aproximei por interesse, mas depois eu me apaixonei e desisti...
-Caralhoooooooo... Você tentou acabar com a minha vida!
-Não!... Eu não tinha ideia de como as crianças eram tão importantes para você... Foi um plano que não deu certo, porque me apaixonei de verdade.
-Que anjinho!... - Resmungou a Talita próxima à TV.
            Aproximei-me dele e tentava conseguir seu perdão.
-Por favor, Leonardo... Eu te amo de verdade...
            Chorando calado, ele levantou seu braço como se fosse me dar um soco. Tremi. Com o punho em posição de ataque, mirou bem na minha cara. Naquele momento achei que o Leonardo fosse quebrar meu nariz. Confesso que não revidaria, pois levar um soco ainda seria pouco perto de tudo que eu havia lhe feito.
            Apenas as lágrimas desciam de seus olhos, e segurando-se para não cometer uma besteira agredindo-me, falou olhando em meus olhos:
-Não consigo bater em alguém que amo tanto...
            Que homem! A dor que eu senti era como se uma lança atravessasse meu peito de uma só vez, arrancando meu coração por partes, prolongando meu sofrimento, de uma doença que se chamava Amor.
            Caminhando lentamente de costas em direção à porta, ele citou o refrão de nossa música:
-“Agora eu vejo, que aquele beijo era mesmo o fim”...
-Não!... Não é o fim, por favor...
            Sem dar mais uma palavra, o Leonardo saiu batendo a porta, soprando a nuvem de sonho que eu havia pousado sem mais querer sair. As lágrimas desciam, apertando meu peito como um mergulho quilométrico, sem previsão de subida.
-Viu o que você fez? - Gritei pra Talita que, sentada ao sofá, respondeu:
-Vá você e ele pro raio que os parta.
            Inconformado, desci atrás dele. Não iria me calar diante de mais uma injustiça. Se não desse em nada, pelo menos iria ouvir minha versão, esclarecendo de uma vez por todas as confusões que quase acabaram com nossas vidas.
            Desci do elevador e pelo vidro do hall avistei o Leonardo cruzando o portão. Imediatamente apressei meus passos. As coisas não poderiam simplesmente acabar daquela forma, sem uma tentativa de perdão.
            Entrando em seu carro, nem olhou-me. Apoiei sobre o vidro ao lado do motorista e tentei conversar:
-Leo, por favor, me ouve?
            Silêncio.
-Leonardo...
-Pensei que você me amasse de verdade... - Disse ele olhando além do horizonte.
            Tirei a chave do carro que ele havia me dado do bolso e joguei em seu colo, dizendo logo em seguida:
-A única coisa que eu quero nessa vida, é você.
            Sem se quer me dirigir o olhar, começou a fechar o vidro. Que droga! O que eu deveria fazer para ele me escutar? Olhar-me nos olhos?
            Num ato de desespero, deite-me a frente de seu carro gritando:
-Pelo amor de Deus... Me dê uma chance de me explicar... Eu te amoooooooooooooooo.
            Fechei meus olhos. Silêncio. Algum tempo depois ouvi o barulho da porta do carro se abrir. Meu coração acelerou. Será que finalmente ele resolveu falar comigo?
            Permaneci de olhos fechados. Novamente ouvi barulho da porta, mas dessa vez se fechando. Respirei fundo. Quando ele deu partida no carro abri os olhos, e ao vê-lo dentro do meu carro, ou melhor, dentro do carro que ele havia me dado, levantei imediatamente, mas era tarde demais. Sem dar-me atenção ele acelerou, deixando sem resposta, largado naquela rua deserta.
            Furioso, voltei ao apartamento da víbora. Se tudo que aconteceu estava sobrecaindo sobre minhas costas, ela também merecia uma boa lição, dividindo a parcela de culpa.
            Entrei em sua sala e lá estava ela, sentada ao sofá, de pernas cruzadas e conversando tranquilamente ao celular:
-Sim, ele acabou de sair daqui... Conforme o combinado, não deixe testemunhas... Tchau.
            Chorando, ao mesmo tempo revoltado, aproximei-me dela e peguei em seu braço questionando:
-Do que você está falando, Talita?
-Quer fazer o favor de me largar?
-Diga logo... O que você está aprontando?
-Hahaha... Eu nunca perco, Claus.
-Talita... Eu não vou deixar você fazer mais nada contra o Leonardo...
-Tarde demais, querido. A uma hora dessas seu namorado já corre perigo.
-Sua filha da puta!
Ela falou de uma forma como se estivesse louca, fora de seu estado normal. Saber que algo de ruim poderia acontecer com o meu amor, fez-me sair do controle. Apertei seu pescoço e disse:
-Eu posso apodrecer na cadeia, mas com certeza eu te mando pro inferno antes.
-Claus... Por favor, não... Ai... Por... Favor... Cof, cof... Claus... Cof, cof...
-Eu vou matar você...
-Não...
-Então fale... O que você tramou contra o Leonardo?
            Quase sem fôlego ela resolveu falar:
-Tudo... Bem, eu... Conto... Cof, cof...
Afastei-me dela questionando:
-Então fale... Andaaaaaaaa. - Gritei.
-Cof, cof... Eu... Eu contratei um matador de aluguel. - Falou tossindo com a mão no pescoço.
-Filha da puta! - Exclamei louco da vida.
-Cof, cof... Ele vai matar o Leonardo...
-Não vai não...
-Agora é tarde, Claus... A uma hora dessa ele já deve estar a caminho.
-Então é melhor você rezar, porque da vida dele depende a sua.
            Corri até a cozinha, abri a gaveta, e peguei uma faca. Voltei à sala. Esperta como a Talita era, já havia pegado o telefone e começado a discar pra polícia. Ordinária! Corri até ela e dei-lhe outro tapa, jogando-a longe.
-Ah!... Por favor, pare...
-Você vai me contar direitinho que plano foi esse...
-Tudo bem, eu conto.
            Apontando a faca para ela, abri a porta e disse:
-Você vem comigo...
-Pra onde você vai me levar, Claus?
-Nós vamos atrás do Leonardo e impedir que sua ideia maldita tire a vida de um homem justo...
            Descemos pelo elevador discretamente, para não chamarmos atenção. Quando chegamos no quinto andar, uma moradora entrou e quando a Talita pensou em fazer um sinal para a garota, sussurrei em seu ouvido:
-Se você der bandeira, vai se arrepender.
-Tudo bem. - Respondeu com a voz tremula e um sorriso amarelo.
            Toda simpática, a garota perguntou à Talita:
-E as crianças, Talita?
-Estão... Bem...
-Que bom! Faz tempo que não as vejo.
-É que... Não estou mais deixando elas descerem...
-Mas por quê?
            Antes de responder a Talita olhou pra mim, engoliu a saliva à seco e falou:
-Férias da babá... Estou... Sem tempo...
-Ah tá.
            Chegando no térreo seguimos até o carro do Leonardo, deixado na vaga de visitante com a chave ainda no contato.
Transtornado, falei:
-Entra logo.
-Claus, por favor... Pra onde você vai me levar?
-Cala essa boca e faça só o que eu tô mandando.
-Tudo bem.
            Entramos no carro e seguimos em direção a casa do Leonardo. Acelerei ao máximo, cortando caminho pelo túnel Ayrton Senna. Com medo, a Talita chorava sem parar, enquanto eu, tirava forças da alma para suportar aquela barra pesada.
-Fala logo, o que você tramou com esse cara?
-Ele vai... Forjar um assalto...
-Como é esse cara?
-Não sei, não conheço...
-Como você não conhece?
-Eu pedi pra um conhecido contratar alguém que fizesse o serviço... Só nos falamos por telefone duas vezes.
-E o que você ordenou?
-Que ele atire no carro e mate quem estiver dentro.
-Sua malditaaaaaaaaaaaaaaaa...
            Desesperada, ela gritou:
-Para, por favor... Eu já estou arrependida.
-Então liga pra esse cara e cancela isso.
-Não dá.
-Por quê?
-Porque não trouxe meu celular...
-E você falou qual era o carro do Leonardo?
-Sim...
            Saindo do túnel, logo avistei meu carro a nossa frente. Que alívio! Corri um pouco mais para alcançá-lo, e consegui. Os vidros do veículo estavam fechados, além de serem escuros. Buzinei duas vezes, mas ele não abriu, e ainda acelerou. Droga! Se eu não conseguisse alertá-lo, uma desgraça provavelmente poderia acontecer.
            Tentei uma ultrapassagem, e estando a sua frente, abri a janela, buzinei e gritei:
-Leonardo... Por favor, pare esse carrooooooooo... Por favor...
            Foi inútil. Ele nem me deu atenção. Quando chegamos na rua de sua casa, meu coração apertou. Quanto mais o tempo passava, menos escolha eu tinha. A grandeza de meu amor era inexplicável, fazendo de mim capas de tudo.   
Percebendo que o Leonardo iria parar no mesmo lugar de sempre, fechei seu carro e quando olhei pelo retrovisor, avistei a moto se aproximando.
-Inferno! - Exclamei batendo as mãos ao volante.
            Ainda com a chave no contato, desci do carro e corri em direção ao Leonardo. Quando ele abriu à porta, avistei o motoqueiro sacar a arma e mirar em sua direção. Nesse momento eu relembrei todos os momentos em que passamos juntos desde o início, tudo num piscar de olhos. Na mesma hora entrei em sua frente gritando:
-Não!
            Dei-lhe um abraço. Não houve tempo de fazer mais nada antes de ouvir o disparo. Com o susto, a Talita gritou, motivo suficiente para que o matador atirasse no carro onde ela estava. Foram dois tiros que à atingiram. Um no braço e o outro na nuca, matando-a na mesma hora.
            Não houve muito tempo de reagir. Abraçado ao Leonardo, eu não senti nada, até ver um monte de sangue escorrer pelas minhas pernas. Olhando em seus olhos, esbocei um sorriso e aos poucos fui perdendo a força das minhas pernas.
            Desesperado, o Leonardo exclamou:
-Meu Deus! Claus?...
Olhei para minha roupa e a vi ensopada. Comecei a sentir falta de ar.
-Vou te levar pro hospital... - Disse segurando-me em seus braços.
Imediatamente toquei em sua mão, caindo ao asfalto dizendo:
-Não! Não perca seu tempo... Fique aqui comigo, por favor?
Chorando muito ele deu-me um abraço apertado questionando:
-Por que você fez isso, seu maluco?
Tremendo de tanta dor, respondi:
-Por amor... Eu te... Amo tanto que... Troquei minha... Vida pela sua... Será que agora você acredita que meu amor por você é verdadeiro?
-Claus... Você não poderia ter feito isso...
Apertei forte em sua mão dizendo:
-Leo... Você é a pessoa mais...
-Não... Não fale, você está perdendo muito sangue...
            Com dificuldade eu continuava:
-Eu preciso falar... Por favor, deixe-me terminar...
-Cara... Eu te amo muito, você não tem ideia do tamanho da dor que estou sentindo...
-Você... Foi a única pessoa... Que eu amei na minha vida...
-Eu também te amo... Muito...
-“E agora é tarde, acordo tarde... Do meu lado alguém que eu não conhecia, outra criança... Adulterada, pelos anos que a pintura escondia... Aquele beijo, era realmente o fim!” - Cantei um trecho da música que marcou nossa história.
            Nesse momento ouvi uma sirene soar. Fechei meus olhos, pois minhas vistas já não viam quase nada, porém, consegui ouvir passos e a voz da Fernanda gritando:
-Pai!... O que aconteceu?
-Filha... Chame ajuda, por favor?
-Eu ouvi os tiros, já chamei a polícia...
            Com a voz querendo sair e estando quase sem ar, perguntei:
-Diz que você me perdoa?
-Claus...
-Por favor, me perdoa?
-Te perdoo... Te perdoo... Te amo, cara.
-Agora sim... Agora... Posso morrer em paz. - Falei com um leve sorriso na face, deixando as lágrimas da emoção escapar.
-Morrer? Pare com isso, Claus...
A partir daquele momento eu não me movi mais, desfalecendo em seus braços. Por mais que eu estivesse inconsciente, conseguia ouvir tudo que se passava ao meu redor.
-Claus?... Claus?... Voltaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa... Por favor, não saia da minha vida assim... Claus...
            Logo a polícia chegou, em seguida o resgate. Em pouco tempo colocaram-me sobre a maca, com muito cuidado. Os vizinhos olhavam assustados de suas janelas, e o trânsito de carros pela rua fora interrompido.

            Fui levado para o hospital mais próximo, enquanto a Talita permaneceu no local, aguardando a perícia e o IML chegarem para retirar seu corpo dali.


Próximo capítulo:   | A redenção |
Dia 07/04