segunda-feira, 25 de julho de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 8



            Eu não via a hora de apresentar a minha “razão de viver” aos meus amigos. Ao entrar em minha vida, o Cauê transformou-a completamente, levando-me ao paraíso sem sair do lugar, fazendo-me viver um sonho acordado.
            Cheguei à estação Armênia do metrô e fiquei esperando pelos dois. Olhei no relógio e já eram oito horas da noite, sendo que havíamos marcado para nos encontrar as oito e dez. Cinco minutos depois a Soraia chegou toda elegante, com um perfume que deixava rastro por onde passava, cheia de pose em cima de um salto agulha.
-Oi Tom!
-Boa noite! Você está linda...
            Tocando em sua mão, girei-a para ver em ângulo de 360 graus.
-Eu?
-Sim...
            Realmente, a Soraia estava muito bonita. Os olhos pintados, realçados com uma sobra brilhante moderadamente, e nos lábios um gloss, deixando-as com um ar sexy. Ao notar uma tristeza em seu olhar, não hesitei em perguntar:
-Miguxa... Você está triste?
-Ai Tom... Estou um pouco mal...
-Por quê?
-Hoje quando fui me arrumar pra vim, nenhuma roupa me servia...
-Sério?
-É... Tive que ir correndo até o shopping comprar algo pra vestir...
-Nossa!
-Fiquei muito mal.
-Eu imagino.
-Bem... Mas graças a você minha mãe tem me dado mais atenção...
-Ah é?
-Sim... Ela me incentivou a fazer um regime, ou melhor, uma reeducação alimentar através de uma nutricionista...
-Com isso eu concordo, mas ainda acho que você deveria consultar um médico.
-Você acha?
-Acho.
-É... Vou pensar...
-E, por favor, pare de se entupir com aqueles remédios que não adiantam nada.
-Tentarei.
            Com o auxílio de um funcionário o Cauê desembarcou. Guiado também com sua vareta eles caminhavam em direção às catracas quando os abordamos.
            Estando os três juntos, seguimos para a baladinha onde eu costumava frequentar. Descíamos à escada rolante quando a Soraia perguntou:
-Cauê... Como você faz pra andar sozinho por São Paulo que é tão grande?
-Eu saio com o Emílio quando vou para lugares que não conheço...
-E quando não está com o Emílio?
-Quando não estou com o Emílio eu uso a vareta para me guiar...
-Mas não é ruim andar pelo metrô? Você não tem medo de cair nos buracos das calçadas?
-Ah... Os funcionários do metrô nos ajudam a se locomover nas estações... Além de ter sinalização no piso para guiar pessoas com problemas como o meu...
            Em 2005 a Secretaria Municipal das Subprefeituras de São Paulo iniciou o Programa Passeio Livre, onde através do decreto 45.904/05 estabeleceu normas de acessibilidade, dimensões e materiais adequados para implantação de calçadas e uma forma de parceria com a iniciativa privada para reconstruir calçadas.
            Para que a padronização e acessibilidade dos passeios atinjam toda a cidade, as calçadas dos imóveis particulares também foram reformadas, sendo de responsabilidade do proprietário do imóvel a conservação, manutenção e reforma, independente se residencial ou comercial. As calçadas que estiverem irregulares ou mal conservadas são passíveis de multa.
            Em 2007 o total de calçadas reformadas na cidade já passava dos 500.000 m², sendo revestidas com pavimento de blocos Inter travados, nas cores vermelha, cinza e cinza escuro, com extremidades rebaixadas para facilitar o trânsito de cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida, onde idosos, gestantes, deficientes e crianças possam transitar sem preocupação e riscos de acidentes. Há também pavimentos feitos de concreto moldado, placas pré-moldadas e ladrilho hidráulico. Os motivos que levaram a prefeitura a escolher materiais como esses foram a estética, a durabilidade e flexibilidade de remoção e recolocação, sendo econômico e ecológico, por permitir que a água penetre no solo entre os blocos.
            Ao chegarmos avistei o Kico parado à porta, vestindo uma calça preta e uma camiseta branca. Usando um boné com a aba virada para trás e os olhos pintados, nem notou nossa presença.
            Calado, aproximei-me dele e puxei seu cinto por trás, dando-lhe um susto.
-Tom! Que sustooooooo...
-Hahaha... Deixa eu te apresentar... Esse é o Cauê...
-Prazer, Cauê!
-Prazer!
-E essa é nossa amiga Soraia...
-Nossa, girl! Como você é bonita...
            Tímida, a Soraia agradeceu após cumprimentá-lo com um beijo no rosto.
-Bonita?... Obrigada!
            Nem precisou que ela dissesse para notar sua felicidade. Claro que na frente do Kico eu não falaria nada, mas depois confirmaria sem sombra de dúvidas minhas suspeitas, com discrição. Caminhando em direção à porta perguntei ao Kico:
-Você não vai entrar?
-Estou esperando o Dinho...
-A gente se vê lá dentro então.
-Certo.
            Tornei-me apoio da Soraia e do Cauê, pois ambos seguravam em meu braço, um de cada lado, estando eu ao meio, recheando o sanduiche. Procurei um canto onde pudéssemos ficar sem muitas pessoas em volta. Ao lado esquerdo encontramos uma mesa, e logo depois que nos instalamos o Kico e o Dinho nos encontraram:
-Nossa... Por que vocês estão se escondendo?
-Quem disse que estamos nos escondendo?
-Então pra que ficar aqui no canto?
-Não posso deixar o Cauê no meio do povo, ele tem deficiência visual...
-Ah!... Eu vou buscar uma cerveja e já volto...
-Beleza.
            Enquanto os dois foram ao bar, perguntei à Soraia:
-Sê... Por que você está toda solta desse jeito?
-Eu?... Como assim?
-Sim... Depois que o Kico falou que você estava bonita...
-Ai amigo... Nunca ninguém me fez um elogio desse antes...
-Sério?
-É...
            Segurando duas latas de cerveja na mão o Kico voltou, oferecendo uma delas à Soraia. Eu não era bobo, e percebi logo um clima rolando entre os dois. Por volta das nove horas toda a turma já havia chego, concentrando-nos em volta da mesa e conversando sobre diversas coisas.
            Dando um gole em sua caipirinha a Linoka perguntou:
-Tom... Quanto tempo faz que você e seu amorzinho estão namorando?
            Após um suspiro o Cauê respondeu por mim:
-Não estamos namorando, apenas ficando.
-E o que falta pra vocês namorarem?
-O Tom me pedir em namoro.
            Nesse momento todos começaram a gritar:
-Pede... Pede... Pede...
            Até a banda que tocava no palco parou e aderiu ao coro. Morri de vergonha, pois nunca havia passado por tal situação. Pedindo silêncio, toquei na mão do meu amorzinho e com uma certa timidez tentei dizer:
-Bem... Mozinho... Você aceita namorar comigo?
-Aceito!
            Todos começaram gritar:
-Aeeeeeeeeeeeeeeeee...
            Demos um beijo, e logo em seguida a banda retomou às músicas. Minhas mãos tremiam, tamanha timidez. Tirando o cigarro da boca o Kico puxou-me de lado falando:
-Tom... Será que tem jeito de você tentar um esquema com sua amiga?
-Você está falando da Soraia?
-É.
-Pra você?
-É...
-Bem... Eu posso falar com ela...
-Brigadu, migow!
            Voltei à mesa e disse no ouvido da Soraia:
-Sô... Eu acho que o Kico ficou a fim de você.
-De mim?
-É... O que você acha?
-Mas Tom, eu sou gorda...
-Não foi isso que ele disse para você...
-É verdade... Ai meu Deus...
-O que foi?
-Eu não sei o que eu faço... Ninguém nunca se interessou por mim...
-Então decide, eu posso dizer a ele que você topa conversar?
-Pode.
            Fiz apenas um sinal com a cabeça para ele que se aproximou e sentou-se ao nosso lado. Deixei-os conversando e fiquei dando atenção ao Cauê, e ao virar-me novamente avistei os dois se beijando, abraçados, trocando carinhos. Fiquei super feliz pelos dois, pois ambos eram pessoas que eu gostava, e logo contei a novidade ao Cauê que vibrou com a notícia.
-Mozinho... A Soraia e o Kico estão se beijando...
-Sério?
-É...
-Me beija também?
            Pegando o embalo dos dois, eu e o Cauê iniciamos um beijo também. Passamos uma noite muito agradável, principalmente a Soraia, que aproveitou bastante com o Kico. Fiquei muito feliz por ela, pois o meu amigo era um cara muito bacana, e eu não digo isso pelo fato dele ser meu amigo, mas sim por reconhecer o valor real das pessoas.
            Deixamos à balada já passava dás onze horas da noite. Por insistência da Soraia e do Cauê, acabamos voltando de táxi, e no estado em que a Soraia ficou após beber meio copo de batida, não seria seguro se ela voltasse de metrô.


sábado, 23 de julho de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 7




Acordei com muita preguiça naquela manhã. Levantei, escovei os dentes, tomei banho e desci para tomar café, vestindo apenas um roupão. A mesa já estava pronta e minha mãe retirava uma torta do micro-ondas quando perguntei:
-O que é isso, mãe?
-Torta de maçã.
-Hum!
            Nesse momento o telefone tocou. Segui em direção à sala dizendo:
-Deixa que eu atendo...
            Ao pegar o telefone, chamei por duas vezes, mas ninguém respondeu, desligando logo em seguida.
-Alô?... Alô?
            Voltei à cozinha e sentei-me à mesa novamente. Pegando a jarra de suco na geladeira minha mãe perguntou:
-Quem era?
-Não sei... Não falou nada.
            Assustei-me com o barulho da jarra se quebrando ao chão.
-Nossa!... Está tudo bem?
-Ai, droga...
-O que houve?
-Acho que me distrai...
-Mãe... Fale a verdade, não foi só isso...
            Percebi que minha mãe havia ficado muito nervosa quando disse que ninguém havia respondido ao telefone.
-Tom... Vá se vestir para sairmos, se não você vai se atrasar.
-Mãe... Era ele, não é?
-Para...
-Fale? Era ele?
-Não sei... Acho que sim...
-Ele tem te ligado?
-Tom...
-Ele tem te ligado?
-Sim.
-E o que ele diz?
-Filho...
-Fale, mãe?
-Às vezes ele faz ameaças...
-Que tipo de ameaças?
-Ele... Diz que vai nos tirar tudo.
-Não acredite no que ele disser... Você é forte, mãe... Mesmo que ele queira, metade de tudo é nosso por direito legal...
            A intenção dele era fazer uma pressão psicológica, e claro que não era somente aquilo que ele estava ameaçando, pois eu tinha certeza que muito mais delitos havia ali, porém, minha mãe preferiu omitir, por vergonha talvez, mas independente do motivo eu iria descobrir.
-Mãe... Peça para que mudem o número do telefone...
-Não acho que seja necessário...
-Por favor, mãe.
-Tudo bem... Quando você voltar da faculdade, pode fazer isso por mim?
-Claro!
            Não toquei mais no assunto durante o caminho até a faculdade. Após deixar-me em frente ao campus ela seguiu para a lanchonete para trabalhar. Entrei na sala de aula e notei um certo tumulto, arrastando as carteiras para os lados e conversas em altas vozes.
            O professor começou a dividir a sala ao meio e iniciou um debate sobre cotas em universidades. Eu odiava quando ele promovia seus debates daquela forma, pois eu ou um dos “excluídos” sempre éramos alvos de alguma piada, e claro, naquele dia não seria diferente.
-Galera... Silêncio... Eu quero que vocês me digam a opinião de vocês com relação às cotas em universidades. Isso gera ou não preconceito? Dividam-se em dois grupos com vinte alunos cada um.
-A gente escolhe em qual grupo quer ficar?
-Pode escolher... Um grupo defenderá as cotas e o outro se manifestar contra...
-E qual será a favor?
-Isso eu vou escolher...
            Após um breve sorteio ele definiu que o grupo da esquerda seria a favor das cotas.
-Esse grupo aqui será contra, e esse a favor.
            Com uma caneta à mão, o Roberto, que ficou no grupo a favor das cotas iniciou dizendo:
-Essa questão é muito complicada, professor... Pode ser vista como preconceito se for vista apenas a questão das cotas isolada do propósito...
            De uma forma arrogante, a Amanda, que para variar estava no grupo que debatia contra, colocou sua opinião diante a sala:
-Eu acho que pobre já tem uma vida muito sofrida, não deveria fazer faculdade.
            Apoiando-se em sua mesa o professor questionou:
-Ué... Por quê?
-Não que eu seja preconceituosa, mas acho que existem coisas nessa vida que são feitas para determinados tipos de pessoas, e curso superior não foi criado para a classe proletariada.
            Até admiro a coragem que ela teve em expor sua radical opinião, porém, eu não ia deixar passar a oportunidade de mostrar o quanto sua vida era vazia. Pedi a palavra ao professor e retruquei sua afirmação:
-Mas depende da pobreza da qual você está se referindo, pois existem aquelas pessoas que são tão pobres, tão pobres, que só o que elas têm é dinheiro...
            Claro que ela entendeu que a indireta era pra ela, e decorrente a isso não respondeu mais nada, dando ao professor a palavra para prosseguir com o debate. Assim como a Amanda, toda a sala entendeu o recado, como a carapuça do saci.
            No horário do intervalo descemos eu, o Cauê e a Soraia para a praça de alimentação, pois a fome havia batido e um pequeno lanche naquele momento cairia muito bem.
            Sentamos à mesa, o Cauê comentou:
-Você foi demais, Tom!
-Por quê?
-Falou tão bonito... Me senti orgulhoso de você...
            Levantando-se da mesa a Soraia disse:
-Nossa, Tom!... Eu queria ter essa coragem que você tem...
-Parem com isso.
-Estou indo até a cantina. Alguém quer alguma coisa de lá?
-Eu quero um achocolatado, lindinha.
-E você, Cauê?
-Pode me trazer um pão de queijo?
-Claro! Volto logo.
            Após um curto suspiro o Cauê chamou-me atenção para a entrega do trabalho:
-Tom... A semana que vem temos que entregar aquele trabalho das duplas.
-É verdade! Eu havia esquecido...
-Podemos fazer no próximo sábado em minha casa, se vocês quiserem...
-Por mim tudo bem...
-Será que a Soraia irá topar?
-O que tem eu?
-Eu estava sugerindo ao Tom em fazer aquele trabalho das duplas em minha casa no próximo sábado. O que você acha?
-Eu adorei a ideia!
-Então fechou. Faremos o trabalho na minha casa.
-Ótimo! O que eu levo?
-Você já leve as pesquisas prontas da internet e o Tom leva as de revista... Em casa eu já tenho o código...
            Depois de tomarmos nosso lanche, voltamos à sala e continuamos assistindo à aula e participando do debate, porém, sem piadas ou picuinhas, pois todos já haviam entendido que nenhuma gracinha seria tolerada calado.
            No domingo minha mãe não foi trabalhar, pois não seria dia de folga dos empregados, sendo assim ela optou em descansar o final de semana em casa. Eu sempre a incentivei em não trabalhar aos finais de semana, pois haviam os empregados que cuidavam da lanchonete sem que minha mãe precisasse supervisionar, porém, sua mania de se sentir inútil estando em casa sem fazer nada lhe causava certo incomodo.
            Acordei por volta das oito horas da manhã, seguindo direto para o banho. O dia lá fora estava agradável, sol ameno e ventando moderadamente. Meus olhos ainda ardiam de sono, e ao lavar o rosto acabei molhando o cabelo, algo que eu não queria que acontecesse. Após juntar o material do trabalho e passar o perfume, desci a escada na ponta dos pés.
            Sai de casa rápido, nem tomei café para não ter que cruzar com minha mãe, pois acabaria enchendo-me de perguntas e eu não estava a fim de interrogatórios naquele dia.
            Caminhando pela rua eu ia pensando na montagem do trabalho, não vendo a hora de chegar lá e por em prática minhas ideias. Não que eu me considerasse o melhor, mas sempre defendi minhas ideias em tudo que fazia, mesmo que não fossem aproveitadas ou ouvidas, mas eu fazia questão de expor.
            Desci do metrô e peguei um ônibus até a casa do Cauê, pois eu não estava a fim de caminhar por dez minutos e chegar em sua casa suando, fedendo. Minha mochila estava pesada, mas não ao ponto de me incomodar, pelo contrário, o que mais me deixou sem graça foram os olhares das pessoas de espanto, tudo pelo meu jeito diferente de se vestir.
            Ao chegar ao portão de sua casa, toquei a campainha e aguardei alguém aparecer. Sua rua estava cheia de crianças brincando. Na casa ao lado, quatro garotas pulavam corda no quintal, e ao me ver parado na calçada uma delas falou:
-A Irene saiu...
            Após um suspiro profundo eu respondi:
-Obrigado!...
            Olhando-me torto, outra garota perguntou:
-Você é menino ou menina?
            Antes que eu respondesse uma delas disse:
-Ele é Emo, sua burra.
-Credo!... Ele é muito estranho...

"Essa semana uma girl (menina) perguntou se eu era roqueira, eu disse que sou Emo, e ela perguntou se eu era o capeta. Que ridículo!" (Prizinha, 15 anos, Salvador)

            Sinceramente eu nunca entendi essa “rejeição” com relação às pessoas que pertencem a tribo Emocore. Não pelo motivo de pertencer ao grupo, mas a falta de motivos ruins para que se veja os Emos de uma forma pejorativa. Depois de muito questionar e não encontrar respostas, cheguei a conclusão de que a felicidade alheia incomoda. A humanidade vem se tornando cada vez mais violenta, e os motivos são os mais estúpidos que se possa existir. Hoje em dia mata-se por um bilhete de ônibus, um relógio de pulso, ciúme do namorado, ou simplesmente por não ir com a cara do outro e vários outros motivos que se não justificam a violência.
            Espiando pela janela a Soraia exclamou:
-É o Tom!
            Dirigindo-se até o portão o Cauê caminhou como se fosse uma pessoa comum, sem precisar do auxílio do Emílio ou de sua vareta. Exibindo um leve sorriso ele disse:
-Que bom que você chegou!
-Por quê?
-Eu já estava com saudade...
-Que lindoooooo!
-Entre, amor!
            Ao entrar, duas crianças apoiaram-se ao portão e perguntaram:
-Cauê... Quem é esse menino estranho?
            Correndo, uma mulher aproximou-se dele, pegou pelo seu braço e falou:
-Eu já não te falei pra você não chegar perto... Isso não é coisa de Deus...
            Aquilo me deixou muito mal. Sem nada dizer, entramos pela porta da sala, e uma vontade enorme de chorar sem que eu pudesse controlar. Dando-me um abraço a Soraia disse:
-Puxa, Tom... Não fique assim... Que gente perversa!
-Tom... Não chore, por favor... Essa gente é malvada assim mesmo, não ligue...
-Tudo bem... Eu já deveria estar acostumado com isso.
-Jamais volte a dizer isso...
-Mas é verdade, Cauê.
-Você não deve aguentar o preconceito calado... Não foi isso que você me ensinou?
-Sim...
            Dando-me um abraço forte ele questionou sussurrando ao meu ouvido:
-Você confia em mim?
-Confio!
            Seguimos para a cozinha, juntamos todo o material e nos sentamos às cadeiras de madeira trabalhada. O silêncio se fez presente. Próximo à geladeira havia um relógio de parede em formato de gato, onde o tic-tac produzido pelo pêndulo tornou-se o único som por alguns instantes, até que o Cauê levantou-se da cadeira perguntando:
-Alguém quer suco?
            Colocando seus óculos a Soraia perguntou:
-Suco de quê?
-De maracujá.
-Eu quero!
-Foi minha mãe quem fez... Ela também já deixou almoço pronto para nós...
-Que delícia!
-É... Além de um bolo de laranja.
-Ai... Hoje vou sair daqui mais gorda do que já estou.
            Sua casa era simples, mas bem montada. Os azulejos da cozinha continham cerejas desenhadas, combinando com a enorme toalha que recobria sua mesa. De frente para a pia havia uma janela com vista para o quintal, por onde entrava uma deliciosa brisa fresca.
            Folheando as impressões que a Soraia havia levado, questionei:
-Soraia... Isso aqui é o texto bruto extraído da internet ou você resumiu?
-Não... Fiz uma resenha...
-Ah tá!
            Passamos a manhã inteira discutindo, resumindo e montando o trabalho. Não que o tema fosse difícil de ser tratado, porém, não poderíamos deixar margens ou aberturas para que nossas opiniões fossem contestadas, pois o que faz um bom advogado é seu poder de argumentação convincente.
            Antes mesmo de almoçarmos, a Soraia já havia comido seis fatias de bolo. Eu apenas observei calado, achando um exagero, mas não consegui me segurar quando a vi pegando o sétimo.
-Soraia... Você não acha que está comendo demais?
-Ai gente... Desculpem, mas é que está tão gostoso...
-Não que eu esteja me incomodando com o quanto você come, mas estou preocupado com sua saúde...
-Tom... Sinto vontade de comer sem ter fome, não acho que isso seja normal...
-Por que você não faz uma dieta?
-Eu vivo fazendo, mas nunca consigo emagrecer...
            Os sintomas mais comuns do transtorno do comer compulsivo são caracterizados por comer mesmo sem ter fome, dietas e uso de medicamentos contínuos para perca de peso, comer sozinho por sentir-se envergonhado da quantidade de comida ingerida, alteração frequente no peso, ingestão exagerada de alimentos, assaltar a geladeira durante as madrugadas.
            O que irá caracterizar se a pessoa possui o transtorno é a repetição de pelo menos dois episódios por semana conforme citados. Durante a ocorrência desses episódios, no mínimo três características devem estar presentes, tal como sentir-se culpado ou envergonhado após ter comido em grande quantidade, comer sozinho por sentir-se envergonhado da quantidade de comida ingerida, ingerir grandes quantidades de comida mesmo estando sem fome, assaltar a geladeira nas madrugadas, comer até se sentir desconfortável fisicamente, ingerir alimentos muito mais rápido que o normal.
-Alguém tira esse bolo da minha frente, por favor?
-Pegando a bandeja o Cauê falou:
-Deixa que eu tiro...
            Enquanto o Cauê guardava o que havia restado do bolo na geladeira a Soraia perguntou-me enquanto folheava um livro:
-Tom...
-Hum?
-O Cauê disse que você e ele...
-Nós o quê?
-Estão...
-Estamos o quê?
-Ficando?
            Tentando desculpar-se o Cauê disse:
-Foi sem querer, Tom... Escapou... Por favor, não fique bravo?
-Não há problema... Nós estamos ficando sim.
-Que gracinha!... Mas na verdade eu já sabia.
-Sabia?
-Claro... Naquele dia vocês se chamando de amor na frente de todos na coordenação...
-Nossa!... Eu nem percebi...
-Nem eu, Tom!... Saiu tão naturalmente...
            Dando um gole em seu suco a Soraia perguntou:
-Gente... Vocês viram aquele congresso que vai ter em Porto Alegre?
            Mordendo sua fatia de bolo o Cauê quis saber:
-Que congresso?
-Vai haver um congresso em julho lá em Porto Alegre, com palestras de profissionais da área judiciária e valerá como horas complementares.
-E qualquer um poderá participar?
-Não... Acho que tem duas vagas somente.
-Por sala?
-Não, é por universidade. Gente, vocês não viram o cartaz no mural da sala?
-Eu não reparei...
            Descontraído o Cauê falou:
-Eu também não vi.
            Todos rimos. Seguido de um breve suspiro, comentei:
-Eu tô precisando é de uma balada...
            Amarrando seu cabelo a Soraia disse:
-Se eu disser que nunca fui em uma balada, vocês acreditam?
-Eu acredito, pois também nunca fui.
-Sério que vocês dois nunca foram em uma balada?
-Qual é o problema?
-Calma, Soraia...
-Desculpe.
-Não tem problema... É que... Ai, eu sofro muito.
            Sem entender o Cauê perguntou:
-Com o que você sofre, Sô?
-Eu tenho medo de passar vergonha...
-Vergonha?
-É...
            Curioso, quis saber:
-O que aconteceu, miguxa?
-Ai Tom... As pessoas vivem me chamando de gorda, riem de mim... Uma vez eu fiquei a fim de um garoto e sofri muito, pois ele não me quis e disse pra todo mundo da escola que eu era muito gorda e feia.
-E o que você fez?
-Chorei.
-Você é uma burra...
-Ai, Tom!
-Mas é verdade... Você deveria se empenhar e mudar o jogo...
-Como?
-Mostrar a ele o que perdeu...
-Continuo sem entender.
-Faça um esforço, emagreça, e quando você estiver uma girl magérrima, passe por ele e esnobe...
-Será que eu consigo?
-Consegue sim...
            Ansioso o Cauê disse:
-Prometa pra gente então que você vai se inscrever no concurso de Miss?
-Ai gente, não exagere...
-O Cauê tem razão, Sô...
-Mas meninos... Eu não sei nem como faz pra participar disso... Além do mais, não tenho corpo nem beleza para...
-Para com isso. Você é linda, e quando emagrecer vai calar a boca daquela galera que te esnoba e te ridiculariza...
-Não sei...
-Promete que vai pensar?
-Prometo...
-Tive uma ideia!
-Qual, amor?
-Vou levar vocês para conhecer meus amigos...
-Sério, mor?
-Sim... E vou levá-los para conhecer uma balada.
-Quando?
-Pode ser hoje à noite...
-Eu topo, mô!... Mas você vai cuidar de mim, né?
-Claro...
-Bem... Então eu também topo, Tom.
-Você vai ver, Sô... Lá ninguém vai te olhar torto só porque você não pertence ao grupo de sarados...
-Espero que ninguém ria de mim...
-Isso não acontecerá... Bem... Vamos voltar a se concentrar no trabalho...
            Naquele dia cheguei em casa já eram quase quatro horas da tarde. Antes de ir tomar banho, entrei na internet para ver se a galera estava on-line, para assim avisá-los que iria levar duas pessoas comigo para conhecê-los.
            Sentado à cadeira, sem camisa, abria o navegador quando minha mãe entrou no quarto toda feliz dizendo:
-Tom... Sua tia Sandra ligou...
-E?...
-E está grávida.
-Sério?
-Sim... Finalmente ela conseguiu...
            A tia Sandra era uma das sete irmãs da minha mãe. Sendo dois anos mais nova, nunca conseguiu engravidar, e há três anos estava fazendo tratamento junto com seu marido para que o sonho de ser mãe se realizasse.
-Que notícia ótima, mãe!
-Amanhã nós iremos até lá visitá-la...
-Claro!
-Você... Vai sair?
-Sim...
-E vai passar à noite fora?
-Não pretendo... Irei levar o Cauê e a Soraia na balada. Acredita que eles nunca foram?
-Por quê?
-A Soraia disse que não foi por vergonha.
-Vergonha de quê?
-Por ser gorda.
-Coitada...
-É... Mas eu já disse pra ela que a minha turma não irá ridicularizá-la por conta disso.
-Bem... Pelo visto você não irá jantar em casa...
-Não... Só vou comer algo rápido antes de sair.
-Eu fiz pão de queijo hoje à tarde...
-Hummmmm... Adoroooooo!
            Encostando a porta ela disse:
-Eu vou ver um pouco de TV na sala.
-Tá bom.
            Da turma de amigos, apenas o Kico estava on-line. Ao conectar, fui logo chamando para conversar:

/// Srtº Tom \\\  diz: oie migow

----KiCo----  diz: oi fofinhu

/// Srtº Tom \\\  diz: td bein?

----KiCo----  diz: xim e vuxe?

/// Srtº Tom \\\  diz: to tb... vcs vaum lah hj?

----KiCo----  diz: num sei...

----KiCo----  diz: hj num to mt bein naum

/// Srtº Tom \\\  diz: o q vc tem?

----KiCo----  diz: to desanimadu

/// Srtº Tom \\\  diz: ah... para cum issu... e o namoru?

----KiCo----  diz: ki namoru?

/// Srtº Tom \\\  diz: vc e a debi num tava ficandu?

----KiCo----  diz: ixi... acabamu faix tempow...

/// Srtº Tom \\\  diz: q pena

----KiCo----  diz: bein... axu ki vo cum vc entaum

----KiCo----  diz: kem vai cum vuxe?

/// Srtº Tom \\\  diz: eu vo com doix amigu da facu

/// Srtº Tom \\\  diz: ker dize... uma miga e meu ficanti...

----KiCo----  diz: fexaduuuuu... a genti se encontra lah entaum

/// Srtº Tom \\\  diz: xertuuuuu

----KiCo----  diz: eu emo vuxe

/// Srtº Tom \\\  diz: bju

            Após desconectar fui tomar um banho. A galera costumava ir todo sábado à balada no bairro do Bom Retiro, aqui em São Paulo. Lá tem banda ao vivo, toca as músicas que a gente curte e ninguém nos importuna por sermos o que somos.




quarta-feira, 13 de julho de 2016

O QUE OLHOS NÃO VEEM - CAPITULO 6


Dois dias se passaram, e durante esse período a Soraia não foi à faculdade. No segundo dia, ao chegar em casa fui telefonar para ela, pois teríamos que entregar o trabalho na semana seguinte e ainda não havíamos feito.
            Liguei em seu celular, mas deu caixa postal e em sua casa ninguém atendia. Depois de almoçar, digitei todas as informações por e-mail e enviei para ela, pedindo que me retornasse assim que recebesse. Até o momento em que fui dormir, não obtive nenhuma resposta, o que me deixou ainda mais preocupado.
            Antes de dormir esqueci de programar meu celular para despertar, fazendo com que eu perdesse a hora de ir à faculdade no dia seguinte. Durante a tarde telefonei pro Cauê para saber o que foi dado em sala de aula.
-Alô?
-Boa tarde! O Cauê está, dona Irene?
-Oi Rustom! O Cauê está dormindo.
-Ah!... Eu ligo mais tarde então.
-Rustom...
-Eu?
-Queria te agradecer pelo que você fez.
-O que eu fiz?
-Graças a você meu filho não foi injustiçado na faculdade...
-Não há do que me agradecer. Eu apenas fiz valer o direito de um cidadão. Se todas as pessoas desse país fossem unidas, jamais estaríamos passando por situações como essa.
-Eu sei... Mas o Cauê é muito ingênuo...
-Na verdade as pessoas abusam da deficiência que ele possui, mas isso vai ter que acabar.
-Sabendo que ele tem você para ajudá-lo eu fico bem mais tranquila...
-Pode deixar que na minha frente ninguém fará mal pro Cauê. Mais tarde eu volto a ligar para ele.
-Está bem.
-Tenha uma boa tarde!
-Igualmente.
            Desliguei o telefone e logo em seguida liguei para a Soraia. Após três tentativas, finalmente alguém atendeu ao telefone:
-Alô?
-Oi... Por favor, eu quero falar com a Soraia.
-Quem gostaria?
-É o Rustom.
-Oi Rustom! Aqui é a mãe dela...
-Tudo bem com a senhora?
-Não muito... Estou um pouco preocupada com a Soraia...
-Por quê? Aconteceu algo?
-Não sei... Ela não sai do quarto...
-Não sai do quarto?
-Às vezes quando chego do trabalho a vejo chorando, mas quando questiono o que aconteceu ela se cala...
-Que estranho!
-Você não gostaria de vim aqui e conversar com ela?
-Bem... Eu posso tentar...
-Hoje não fui trabalhar, tamanha minha preocupação... Estou acuada, sem saber o que fazer...
-Entendo... Daqui a pouco eu passo ai.
-Muito obrigada, Rustom!
-Por nada.
-Até mais.
            A Soraia sempre dizia ser muito sozinha, pois sua mãe sendo uma das executivas de uma grande empresa nacional do ramo alimentício, passava a maior parte de seu tempo trabalhando, com isso a Soraia tornou-se uma pessoa solitária e depressiva.
            Cheguei em sua casa, e ao tocar a campainha fui recebido pela sua mãe, que simpática dirigiu-se até o portão exclamando:
-Olá!
-Oi... A Soraia...
-Então você que é o Tom que a Soraia tanto fala...
-Bom... Só espero que ela fale bem de mim.
-Disso pode ter certeza.
            Entrando na sala perguntei:
-Onde ela está?
-No quarto... Você sobe a escada, segunda porta à direita.
-Tudo bem, obrigado!
-Por nada.
            Atravessei a enorme sala e subi por uma longa escada de madeira. Enquanto pisava aos degraus, um leve barulho soava, abafado pelo tapete forrado ao centro. Sua casa era enorme, e para duas pessoas apenas tornava-se ainda maior. Caminhando pelo corredor avistava ao final uma estátua sobre uma pequena mesa, enquanto uma cortina de renda dançava suavemente com o vento que entrava pela fresta de vidro.
            Bati à porta e esperei que respondesse:
-Entre!
-Licença...
-Tom!
            Caminhei em sua direção para dar-lhe um abraço. Pálida e abatida, levantou-se da cama onde estava deitada para receber-me.
-Que surpresa você aqui!
-Eu vim saber como você está...
-Não estou muito bem...
            Seu quarto era típico de uma patricinha. Em frente sua cama havia uma escrivaninha com um computador portátil sobre ela. A decoração se dividia entre branco e rosa, e o cheiro de chocolate prevalecia no ar. Pelo que pude notar a Soraia estava longe de ter problemas financeiros, pelo contrário, parecia ter uma vida bem confortável.
            Sentando-me à beira da cama questionei:
-Mas o que aconteceu?
            Chorando ela começou a explicar:
-Eu estava voltando da faculdade, e pra chegar mais rápido em casa resolvi pegar um micro-ônibus...
-Sei...
-Quando eu fui passar na catraca a cobradora disse pra eu descer pela porta da frente, porque se não eu ia entalar...
-Ela falou isso?
-Sim.
-Com essas palavras?
-Foi...
-E você não anotou os dados desse micro-ônibus?
-Na hora fiquei tão nervosa que desci um ponto antes.
-Que absurdo!

A renovação da frota dos ônibus que compõem o sistema de transporte coletivo urbano de passageiros de São Paulo não só traz mais segurança e conforto aos usuários, como também promove ganhos ambientais com a redução da emissão de poluentes no ar. Com a conclusão da incorporação desses novos ônibus ao sistema em 2008, o ar da Capital deixará de receber 1.500 toneladas de poluentes por ano.
Além de serem mais novas, maiores e mais confortáveis, as adaptações fixadas para os novos ônibus incluem o rebaixamento do piso, aumento da largura das portas, eliminação de obstáculos, transmissão automática, suspensão pneumática, limitadores de velocidade e áreas reservadas para cadeirantes e cão-guia. Os micro-ônibus (com apenas uma porta e corredor estreito) não serão mais aceitos no sistema de transporte. "A partir de agosto, todos os veículos deverão atender os critérios estabelecidos", informa o secretário municipal de Transportes.  (Prefeitura, 2007)

            Apesar das adaptações, as catracas dos veículos tornaram-se ainda menor, detalhe que não foi tratado nas adaptações e reestruturação dos carros.
            Ao levantar-me de sua cama, tropecei em uma caixa de bombons cheia de embalagens vazias. Abismado, não acreditei no que vi, pois a quantidade consumida era o equivalente à dez barras de chocolate.
-Soraia!... Você comeu tudo isso?
-Sim...
-Mas você acha que vai adiantar alguma coisa?
-Eu precisava... Estava muito triste, nervosa.
-Você come quando está ansiosa?
-Demais...
-E como é que você quer emagrecer comendo desse jeito?
-Eu sei... Mas a vontade de comer é mais forte do que eu...
-Desde quando você começou a sentir essa necessidade exagerada de comer?
-Acho que desde quando meus pais se separaram...
-E a partir de quando você começou a engordar?
-Desde essa época.
-Você já conversou com sua mãe sobre isso?
-Ela nunca tem tempo, sempre trabalhando... Fico muito sozinha, me sinto vazia.
-Sei... E a forma que encontrou para suprir essa necessidade foi a comida.
-Sim.
            Confesso que quando ela falou sobre “entalar na catraca” tive vontade de rir. Até seria cômico se não fosse trágico. Depois daquela conversa comecei a entender o porquê de sua tristeza no olhar, a compulsão pela comida.
            Nos últimos anos, o transtorno de comer compulsivamente vem sendo reconhecido como uma síndrome, da qual se caracteriza pela ingestão de alimentos mesmo sem ter fome. O que a difere da bulimia nervosa é a não tentativa de perca de peso utilizando métodos compensatórios, mesmo sofrendo por agir daquela forma. Pessoas que comem compulsoriamente despertam sentimentos de culpa e vergonha, além da sensação de falta de controle sobre o ato de comer. A maioria das pessoas que sofrem dessa síndrome são obesas, apresentando variações de peso constante, pois a comida é um refúgio para seus problemas psicológicos.
            Fiquei triste em ver minha amiga naquela situação sem muito poder fazer. Assim como ela existem milhões de pessoas pelo mundo a fora sofrendo pelo mesmo problema, mas sem saber como nem para quem pedir ajuda.
            A obesidade é uma enfermidade que se caracteriza pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, associada a problemas de saúde, trazendo prejuízos ao bem estar. Ela se desenvolve em diversas etapas, podendo ser motivada através de herança genética, por questões socioeconômicas, ambientes individuais ou familiares, até mesmo cultural e educativo. Com isso, uma pessoa pode apresentar algumas características que a distinguem, principalmente na sua saúde e nutrição.
            Depois que nos despedimos, deixei seu quarto e descia a escada quando sua mãe abordou-me:
-Tom...
-Oi!
-Você conversou com ela?
-Sim.
            Sentando-se ao sofá e deixando seu computador portátil de lado ela perguntou:
-Por favor, sente-se... O que ela disse a você?
-Desculpe por eu falar dessa forma, mas a senhora não está sendo uma boa mãe.
-Foi isso que ela lhe disse?
-Não... Quer dizer, não com essas palavras.
-Como assim?
            Sentando-me ao sofá respondi:
-Eu não sou psicólogo, mas nem precisa ser profissional da área para perceber que o problema de sua filha é carência.
-Carência? Nunca deixei que faltasse nada à Soraia...
-Tem certeza?... Quando foi a ultima vez que vocês duas almoçaram juntas sentadas à mesa?
            Calada, baixou sua cabeça.
-A Soraia está sofrendo muito, sentindo-se sozinha, e todos esses problemas começaram na separação...
-Refere-se a minha e do pai dela?
-Claro.
-Eu vou conversar com ela...
-Bem... Eu preciso ir.
-Tom, muito obrigada por ter me contado...
            Parado próximo à porta, respondi:
-Sabe por que o mundo está cada vez mais difícil, e as pessoas, cada vez mais violentas?
-Não...
-Porque não tem quem os ouça...
-Eu...
-Se essas pessoas tivessem recebido o amor de pai e mãe em sua formação, fossem ouvidos, com certeza não precisariam chamar atenção dessa forma, e o mundo seria bem menos violento.
-Você fala de uma forma tão melancólica...
-Sofro até hoje as consequências de ser desprezado pelo pai, e você não imagina o quanto dói uma palavra ruim vinda de alguém que você só gostaria de ouvir coisas boas, que pudesse confiar...
-Entendo...
-Os pais são as únicas pessoas que os filhos confiam, e se eles não passam confiança, em que ou quem irão acreditar? Olhe mais para sua filha... Ainda há tempo.
            Levantando-se e se aproximando de mim ela falou:
-Aquele que não enxerga o garoto maravilhoso que você é, só pode ser uma pessoa do mal.
-Acredito que não... Não culpo as pessoas por isso... Somente os seres especiais sabem o significado de amar de verdade, pois o amor é um sentimento nobre, que Deus dá somente aos merecedores.

            Demos um abraço, em seguida fui embora.