segunda-feira, 4 de abril de 2016

LIVRO: PROFISSÃO AMANTE - CAPÍTULO 25




| A filha desconhecida |
  
            Cada um entrou em seu carro e seguimos para a casa do Leonardo, onde me levou para conhecer sua filha, da qual nunca havia me falado sobre sua existência. Tudo não passou de um mal entendido, e aquela loira que o abraçou naquele dia era fruto de um namoro na adolescência, resultado em uma linda mulher com a mesma idade que eu.
            Ao cruzarmos o portão, o Leonardo comentou:
-Não se preocupe, a Fernanda já está sabendo sobre nós.
-Você contou?
-Claro... Você já é parte de minha vida.
-E o que ela achou?
-Não tem o que achar, nem aceitar. Basta respeitar.
-Você é perfeito!
            Entrei em sua casa, tímido como se fosse a primeira vez. Sorrindo, a Fernanda descia à escada, enquanto o Leonardo fechava à porta entusiasmado:
-Nanda!... Esse é o Claus.
-Oi, Claus!
-Oi!
            Cumprimentamo-nos com um beijo no rosto. Nossa! De perto ela era mais linda do que aparentava ser de longe, praticamente uma modelo. Alta, cabelos loiros com mechas claras e seios proporcionais. Jamais eu diria, ou até mesmo alguém de fora, que o Leonardo pudesse ter uma filha assim, tão bela e jovem quanto ao pai.
-Sabe que meu pai falava muito de você? - Disse a Fernanda sentando-se ao sofá.
-Estou sabendo agora... Ele não havia me contado sobre sua existência.
-Sei que não. Na verdade eu pedi para que ele não contasse por enquanto.
-Você?
-É... Mas não se preocupe, nada contra você.
            Seguindo em direção ao seu quarto, o Leonardo falou:
-Fiquem ai conversando que eu já venho.
            Com o olhar de surpresa, a Fernanda apontou para o sofá e falou-me:
-Pode se sentar...
-Obrigado!... Das vezes que eu vim aqui, nunca tinha te visto. E olha que não foram poucas...
-É que eu não moro aqui.
-Não?
-Não. Só venho pra São Paulo nas férias. Vivo com a minha mãe em Blumenau.
-Ah sim... Nossa! Você é muita bonita.
-Obrigada!
            Levantando-se do sofá, ela falou:
-Eu preciso tomar um banho porque vou dar uma saidinha...
-Tudo bem.
-Claus, foi um prazer conhecê-lo. - Falou cumprimentando-me com um beijo.
-O prazer foi meu.
-Quero te pedir uma coisa...
-O quê?
-Faça meu pai feliz, por favor... Ele merece.
-Farei dele o homem mais feliz do mundo.
-Obrigada!
            Logo que ela subiu, cruzou com o Leonardo na escada. Estando tudo esclarecido, meu peito ficou mais aliviado. Ainda sentado ao sofá, continuei esperando pelo meu grande amor, que se sentou junto a mim abraçando-me bem forte.
-Se você soubesse o tamanho do amor que eu sinto por você...
-A gente até pode não acreditar, mas destino existe e ele não nos colocou frente a frente a toa. - Falei dando um beijo em seu braço.
-De forma alguma. Amanhã eu vou levar as crianças pra casa da Talita, e depois eu vou te buscar para vim definitivamente morar comigo.
-Elas estão aqui?
-Sim... Lá fora com a Cláudia.
            Suspirei fundo e disse em seguida:
-Leo... Preciso te contar o que descobri.
-Conte?
-A Giovana... Estava sendo abusada.
-Abusada?
-Molestada pelo professor.
            Afastando-se de mim, ele questionou:
-Do que você está falando?
            Caminhei em direção à janela. Afastei a cortina e olhando para o jardim, falava:
-Achei muito estranho essa mudança de comportamento da sua filha que ninguém entendia, então resolvi investigar... Pesquisei na internet, fui até a escola, conversei com a mãe de uma colega da Giovana e suspeitava que fosse algo relacionado a pedofilia.
-Pedofilia?
-É... Alguns dias depois consegui finalmente a certeza de que minhas suspeitas estavam certas, e formalizei uma denúncia na delegacia contra o professor.
-Filho da...
-Calma, não se preocupe que ele já foi preso.
-Como descobriram?
-Eu levei as provas, além do mais, quando chegaram na casa dele encontraram em flagrante com uma garota de dez anos...
-Canalha!
-Além de vários brinquedos, doces e fotos escondidos dentro de um armário.
-Eu não acredito que esse cara foi capas de...
-Calma... Embora ele tivesse tentado, não deve ter conseguido ir até os “finalmentes” com as crianças do colégio.
-Como você em certeza?
-Porque o colégio tem muitas câmeras, e ele não poderia entrar no banheiro feminino, né?
-Estou muito preocupado... Vou levar minha filha ao pediatra essa semana.
-De qualquer forma, reúna os pais das crianças e leve para fazer corpo de delito...
-Vou fazer isso hoje mesmo.
-Depois seria interessante procurar um psicólogo para ajudar ela a tratar esse trauma...
            A cara que o Leonardo fez cortou-me o coração. Claro que até eu em seu lugar pensaria milhões de besteiras, mas o criminoso já estava pagando pelo crime que havia cometido, e naquele momento o mais importante era a saúde e bem estar de sua filha.
            Cheguei no flat dando pulos de alegria, pois eu e meu amor fizemos as pazes e, dessa vez, nada nem ninguém iria nos impedir de viver o pleno amor. Assim como dizia minha avó: “Alegria de pobre dura pouco”. Não demorou para que sua frase me provasse veracidade.
            Cruzei a porta da recepção e imediatamente fui abordado pelo Emerson:
-Claus!... Tem alguém aguardando você.
-Quem?
-Está na sala de espera...
            Pelo jeito, deveria ser a safada da Talita. Caminhei até a sala de espera furioso, querendo mandá-la tomar no cu. Para minha surpresa e alívio, logo avistei minha visita. Era o delegado.
-Claus!
-Doutor... O que lhe trás aqui?
-Bem... Confesso que o motivo não é muito animador...
-Algo a ver com o pedófilo e...
-Não, não...
-Então o quê?
-Podemos conversar em algum local mais reservado?
-Claro! Vamos até meu apartamento...
            Fechei à porta. Pedi para que sentasse ao sofá, oferecendo um café logo em seguida. Sentei-me, cabreiro, apreensivo para saber o que se passava.
-Então, doutor...
-Claus... Recebemos uma denúncia de que você saberia do paradeiro de Vera Carvalho.
-Mas quem é Vera Carvalho?
-Vera Carvalho trabalhava na casa do doutor Leonardo Darvi...
-A empregada?
-Sim.
-Mas eu mal a conheço... Não faço ideia de onde possa estar aquela senhora.
-Tem certeza?
            Merda! Agora ele ia começar a me jogar uma pressão psicológica para ver se eu caia, mas eu precisava me controlar, sendo firme nas respostas.
-Não tenho vínculo algum com ela, por isso não posso lhe dizer de fato onde está. Ela é simplesmente empregada do meu namorado.
-E se eu te disser que alguém viu ela entrando nesse flat no dia em que desapareceu?
-Quanto a isso não posso afirmar ou negar, porque eu nem estava em casa.
-Mas eu nem te contei qual foi o dia que ela desapareceu.
-Mas o Leonardo me contou. Doutor, se o senhor está tentando encontrar um culpado para o sumiço dessa cidadã, acho que deverá bater em outra porta. - Falei levantando-me.
            Caminhando em direção a saída, ele concluiu:
-Senhor Claus, esse caso entrará sob investigação. Assim que necessário, retornarei.
-Desejo um bom trabalho ao senhor, e que solucione o caso o quanto antes.
-Até mais.
-Até.
            Inferno! Provavelmente aquela cascavel da Talita era a responsável por me denunciar quanto ao desaparecimento da Vera. A princípio eu não tinha com o que me preocupar, pois nenhuma prova havia contra mim, nem mesmo morte comprovada, por não haver corpo.
            No outro dia acordei por volta das nove da manhã, ou melhor, levantei da cama, pois dormir mesmo não consegui. Liguei na recepção e já informei que estava deixando o apartamento naquele mesmo dia, e não demorou muito para o Emerson bater à minha porta cobrando satisfações.
-Sim?
-Diz que isso não é verdade? - Questionou entrando sem pedir licença.
-O que não é verdade?
-Que você está indo embora.
-Sim, é verdade.
-Não pode ser...
-Por que não?
-Porque eu te amo!
-Emerson, nós já conversamos sobre isso, lembra?
            Caminhando de um lado pro outro, dizia chorando feito um maluco:
-Ninguém te ama mais que eu nessa vida...
-Não seja tão arrogante assim.
-Por você eu fiz besteiras, superei meus limites.
-Eu não pedi pra você terminar seu noivado, e muito menos prometi algo.
            Segurando em meu braço, ele falou olhando em meus olhos:
-Por amor eu tirei uma vida.
-Vida?... Do que você está falando? - Questionei soltando meu braço após um movimento brusco.
-Você lembra da empregada do seu namorado?
-Da Vera?
-Sei lá se é esse o nome dela...
            Percebi que ele estava transtornado, maluco. Os pontos começaram a se ligar e ficarem mais claros. Os fatos e respostas das perguntas que não queriam se calar, finalmente começaram a ser reveladas, deixando-me abismado tanto quanto já estava:
-Naquele dia, aquela mulher chegou aqui transtornada...
            Entrando na recepção sem saber pra onde ir, gritou no balcão:
-Eu quero falar com o Leonardo, sei que ele está vindo pra cá...
-Senhora... Em que apartamento ele está hospedado? - Questionou o Emerson.
-Ele vem pra falar com Claus...
-Então é no décimo nono andar...
            Sem que ele conseguisse segura-la, a Vera correu até o elevador. Para conte-la, o Emerson foi atrás dela. Estando ambos dentro do elevador, ele tentou impedi-la de fazer uma besteira:
-Por favor, espere por eles na recepção...
-Não... Ele não vai mais enganar o meu doutor...
-O que você pensa em fazer?
-Vou contar toda a verdade... Ele vai se dar muito mal por ter enganado meu doutor.
-Ele quem?
-O Claus... Qual é o apartamento dele?
-É aquele ali. - Disse o Emerson apontando para a porta.
            Parada frente a porta de minha casa, ela disse nervosa:
-Saia daqui e me deixe sozinha.
-Por favor, não faça escândalos...
-Só porque você quer...
            Tirando a chave reserva de seu bolso, o Emerson abriu à porta de meu apartamento e falou a ela:
-Espere por ele aqui...
-Obrigada.
            Assim que a Vera entrou ele fechou à porta. Pegou um copo que estava sobre a pia da cozinha e acertou sua cabeça. Imediatamente ela desfaleceu com a pancada. Vendo-a sangrar esticada no chão, deixou meu apartamento levando o copo.
            Abismado, perguntei:
-Mas por que você fez isso, Emerson?
-Por amor.
-E como você conseguiu a chave do meu apartamento?
-Nós funcionários temos um cartão que abre todas as portas, por segurança.
            Sentei-me ao sofá, abismado. Com a mão à boca, comentei:
-E eu pensando que tinha sido a Talita que...
-Por favor, Claus... Entenda que fiz isso por amor.
-Ninguém mata por amor.
-Mas mata para proteger um amor. - Disse ele aproximando-se de mim.
-Tire a mão de mim! - Gritei afastando-me do Emerson.
            Chorando, ele levou sua mão ao rosto. Confesso que tive medo, muito medo. Se ele era capas de matar como fez com a Vera, provavelmente poderia fazer comigo coisa pior. Pra variar, eu não poderia denunciá-lo, pois ele sabia das minhas falcatruas e cabia uma denúncia formal, principalmente pelo roubo da tela na casa do Leonardo.
            Definitivamente eu estava ferrado. Sem saber o que fazer, caminhei apressado até a porta, abri e disse a ele morrendo de medo:
-Emerson... Eu preciso pensar...
-Pensar em quê?
-Na minha vida que você acabou de destruir. Por favor, me deixe sozinho?
-Eu vou me entregar a policia, Claus.
-O quê?
-Não se preocupe, não direi nada sobre você...
-Por favor, não faça isso por enquanto.
-O que você quer que eu faça? Peça, você quem manda...
-Deixa eu resolver minha vida primeiro, depois eu te procuro para vermos o que poderá ser feito...
-Resolver sua vida com o outro, né?
-Emerson, por favor, não complique as coisas?
-Tudo bem, vou te esperar então... - Falou caminhando em direção à porta.
-Pelo amor de Deus, não cometa nenhuma besteira.
-Vou tentar. Com licença.
           Chorando ele deixou meu apartamento. Bati a porta, tremendo, tentando entender o que se passava pela sua cabeça. Uma pessoa que comete tal atitude não pode ser normal, e cedo ou tarde alguma loucura ainda maior ele poderia fazer contra mim. Sendo assim, senti-me na obrigação de ajudá-lo.

            Toda aquela confusão me deixou triste, apreensivo, deprimido. Pelo horário, o Leonardo provavelmente ainda estava dormindo, pois todo final de semana ele acordava tarde por conta das crianças que brincavam e faziam seu tempo render cansaço.



Próximo capítulo:   | Uma quase verdade |
Dia 06/04



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