quarta-feira, 6 de abril de 2016

LIVRO: PROFISSÃO AMANTE - CAPÍTULO 27




| A redenção |
                                                                
            Um dia eu sonhei que havia encontrado um homem que me chamava de LINDO ao invés de GOSTOSO. Que me ligava de volta quando eu desligava o telefone, que se deitava sob as estrelas para encontrar no silêncio as batidas do meu coração, ou continuava acordado para me ver dormir.
            Naquele sonho o cara me beijava na boca para demonstrar DESEJO, e também me beijava a testa para demonstrar RESPEITO. Segurava em minha mão na frente de seus amigos, achando-me o homem mais lindo do mundo, mesmo quando eu estava doente. O cara que lembrava constantemente o quanto ele se preocupava comigo e o quanto sortudo era por estar ao meu lado.
            Sonhei com um homem que esperou por mim, aquele que virava para os amigos e falava: É ELE!
            Desse sonho eu acordei, olhei para o lado e vi o Leonardo dormindo, respirando como um anjo, foi ai que dei-me conta de que não se tratava de um sonho. Tudo aquilo que vivi era real, um conto de fada. Quantas pessoas gostariam de estar no meu lugar?
            Quase todas. Eu que tive a sorte nas mãos, a posse da felicidade, não soube dar valor, como se abrisse a porta de uma gaiola e deixasse o pássaro voar, para longe, para sempre.
            A vida é mesmo muito injusta. Tudo que o Leonardo me ensinou foi que o amor é à base da vida, que pode proporcionar alegrias e tristezas. Sei que o dinheiro compra muita coisa, só não compra sentimento, caráter, conhecimento.
            Espero que um dia a inveja seja apenas contos do passado. Espero haver um dia um mundo sem guerras, sem fome, sem violência. Acredito que a humanidade, cedo ou tarde cairá em si, porque dependemos um do outro para viver.
            Fui levado para o hospital e encaminhado diretamente para a U.T.I, onde permaneci em coma induzido por dezessete dias. Durante esse tempo, minha consciência levou-me a uma viagem, torturando-me por todas as maldades que pratiquei e contribuí.
            Todos os dias eu sentia a presença de minha mãe cuidando de mim, tocando-me. Seu cheiro pairava no quarto, causando-me uma sensação de paz e alívio tão grande que não havia palavras para explicar.
            Minha recuperação estava estabilizando-se aos poucos, quando no décimo oitavo dia ouvi uma voz de criança dizer:
-Olha! Ele está se mexendo!
            Meus olhos se abriram. Ainda entubado e um pouco tonto, pude ver o Leonardo ao meu lado esquerdo, segurando o Artur no colo e a Giovana à borda da cama. Minhas lágrimas desciam, sem que eu pudesse dizer uma só palavra.
            A enfermeira entrou no quarto, e entregando o Artur para ela, o Leonardo pediu:
-Por favor, leve eles um pouco lá fora?
-Sim, claro.
            Assim que ela saiu, ele aproximou-se de mim, tocou minha mão e falou:
-Não se entregue... Eu sei que você pode me ouvir. Procure ficar bem, você está nas mãos de ótimos profissionais. Lute, sei que você é um vencedor. Prove a si mesmo que é capaz.
            Quando o vi deixando aquele quarto, chorei desesperadamente. Todas as mágoas, ressentimentos, exteriorizavam-se naquele momento através das lágrimas que misturadas a diversos sentimentos aliviavam o peso de minha alma.
            Um mês havia se passado. Durante esse tempo permaneci sozinho naquele hospital, isolado do mundo, refletindo cercado por aquelas paredes brancas e frias.
            Sentado à cama, almoçava um creme de abóbora quando a enfermeira entrou com uma prancheta na mão questionando:
-Claus?... Posso entrar?
-Pode, claro!
-Como você está se sentindo?
-Bem...
-Que bom! Vim aqui pra te dar a notícia de que você vai receber alta.
-Hum...
-Não está feliz?
-Sim claro.
-Você tem algum parente para vim te acompanhar?
-Infelizmente não... Sou sozinho nesse mundo.
-Bem... Precisaria que alguém assinasse sua alta.
-Mas eu não posso assinar?
-Não... Mas vou ver o que pode ser feito nesse caso, tá?
-Tudo bem.
            Após meu almoço começava a me preparar, quando o doutor entrou no quarto após bater duas vezes à porta:
-Posso entrar?
-Claro, doutor!
-Vim te dar a melhor notícia do mundo.
-Qual?
-Você já está de alta.
-Obrigado, doutor.
-Claus... Você parece que não ficou feliz com a notícia...
-A situação em que estou, doutor, estar vivo já não é uma boa notícia.
-Não diga isso, rapaz. Você é muito jovem ainda, tem um futuro pela frente...
-De qualquer forma eu lhe agradeço.
-Bem, Claus... Eu te desejo boa sorte e tudo de bom nessa nova jornada.
-Muito obrigado.
            Após um abraço, ele caminhou em direção à porta e ao abri-la, virou-se para mim dizendo:
-Ah!... Esqueci de te avisar, tem visita pra você.
-Visita?
-Sim.
            Quando ele abriu a porta e o Leonardo adentrou ao quarto. Paralisei. Com o lindo sorriso que só ele sabia mostrar, perguntou:
-O paciente já está pronto para ir pra casa?
-Novinho em folha. - Respondeu o médico.
-Que bom!
            Assim que o doutor deixou o quarto, o Leonardo aproximou-se de mim e falou:
-Vim te buscar.
-Me... Me buscar?
-É... Te buscar.
-Você... Sabe o que realmente está fazendo, Leo?
-A única coisa que eu sei é que amo você.
            Abraçamo-nos. Em poucas palavras ele conseguiu mudar minha vida radicalmente, e a partir daquele momento a felicidade havia voltado pra mim.
            Depois de tudo que aconteceu, o Leonardo ainda continuava com suas atitudes nobres, se preocupando comigo. Com ele aprendi que o valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis como ele.
            A ambição da Talita acabou custando sua vida, mas o bem sempre prevalece sobre o mal, e o Leonardo conseguiu a guarda de seus filhos. Já o Emerson, entregou-se à polícia e confessou seu crime, porém, estava solto pela ausência da prova principal que era o corpo da Vera.
            Sei que nada em nossas vidas acontece por acaso, fazendo-me crer que brincar com os sentimentos dos outros pode custar uma vida.
            Tudo que fazemos terá consequências, boas ou ruins, assim como diz a lei da física, que toda ação gera uma reação. Acontecimentos se repetem, mas não seguem em círculos, voltando sempre ao mesmo ponto, girando em espirais. Cada fim é igual a um começo, só que numa dimensão diferente. A lição que tiro de todas essas experiências de vida?

A pior coisa que se pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando não se pretende fazer o mesmo.

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